quinta-feira, 18 de maio de 2017

Foz



Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente 
A trágica voz rouca, enquanto o vento 
Passava como o vôo do pensamento 
Que busca e hesita, inquieto e intermitente, 

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente... 

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais? 


Mas na imensa extensão, onde se esconde
O inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...



                                                    Antero de Quental, in "Sonetos" 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Será


que no fim da linha há um reencontro?

Ou é só um buraco negro?


Pôr do sol para lá do Marão





Leio, e sou límpido nas minhas intenções; o que há de febre na simples vida abandona-me; uma calma completa me invade. Todo o repouso da natureza está comigo.

Alberto Caeiro

domingo, 14 de maio de 2017

Pobre país



Este embandeiramento em arco pelo Benfica ( se fosse outro clube a ganhar o campeonato, deixávamos de ser progressistas e realizados?) , pela vitória no Festival da Eurovisão ( por muitos considerado até aqui um fraco exemplo da Música a sério) ou pelo fenómeno de Fátima ( explorando a crendice mais baixa e a ignorância de todo um povo no tempo da outra senhora), deixa-me um travo amargo.


A Educação, a Saúde, a Ciência, a alfabetização ainda não chegaram a todos...para não falar do emprego, da realização pessoal e solidariedade social. Acho que um país que embandeira em arco com o futebol e um festival da Canção não é senão uma triste imagem de subdesenvolvimento. 


Já a vinda do Papa tem outros contornos e muita sombra nos bastidores, que não ouso mencionar. E não me importo de ser considerada reaccionária ou pessimista ou lá o que seja, pois sempre lutei e trabalhei por um país melhor e dei o corpo ao manifesto em alturas cruciais.




Felizmente há luar....ou glosando o Luis Stau Monteiro....felizmente há o mar, esse é que é o nosso verdadeiro património civilizacional.






Sem destino certo



Hoje fui à Baixa embora estivesse a ameaçar chuva. Precisava de umas linhas para continuar o meu crochet. E também de ir ao talho, pois o meu filho viria jantar.
Até pensei que seria ida pela volta, dado o mau tempo que se fazia sentir aqui no Porto.

Mas não.

Ao meter-me no metro para voltar, deu-me uma vontade incrível de partir. Nem sabia bem para onde. Passei a Casa da Música, onde deveria sair e continuei, continuei até Matosinhos Sul. Nunca tinha ido de metro até tão longe. Foi uma experiência engraçada. Sentia-me no estrangeiro quase, não foram os jovens barulhentos que entraram no metro a certa altura.

Saí, o vento era forte, mas quente, quase tropical.  O ar marítimo encheu-me os pulmões. Rejuvenesci logo com a ideia de que o mar estaria próximo.

Andei até à praia quase deserta. Espraiava-se literalmente até ao mar lá longe. Era o contrário da Foz, onde o mar quase nos lambe os pés na esplanada. Nã havia rochas,  mas a paisagem era lindíssima com as nuvens prateadas e o sol a espreitar.

Dezenas de parapentes - não sei se se chamam assim - flutuavam no céu. Parecia uma imagem doutro planeta.


Junto ao Edifício Transparente faziam os preparativos para um evento desportivo, surf, corrida, skate e não sei que mais. Estavam muito animados com altifalantes e música. Não gostei muito, de modo que saí dali e fui para a esplanada cá fora, onde bebi uma água a olhar para o mar.



Sentia-me tão bem , depois de andar quase 4kms!! Há quem diga que as caminhadas fazem bem à alma, hoje senti-o muito bem.

O efeito do mar e da praia em mim  é algo quase místico. Nas minhas cartas já nos anos 60, eu falava ao meu namorado da magia que encontrava na água. Ele não percebia, achava um exagero e tinha receio do futuro a dois. Dava-se mal com o ar do mar e preferia passar férias nas termas, embora se queixasse depois que só havia velhos e que não se divertia nada por lá.



Nunca nos entendemos depois de casados, ele ia para a praia da Luz contrariado e só por causa dos filhos;  depois deixou mesmo de ir quando os miúdos cresceram. Não percebia a minha paixão por aquela praia, aborrecia-se com tudo, achava-se a mais porque não gostava do mar e passava os dias a ler. Queria comer a horas certas e refeições decentes, o que não dava muito jeito nas férias.

Para mim as férias passaram a ser um drama. A partir de certa altura, o meu marido optou por não ir. Ficava com a Mãe ou iam para as termas. Ia eu sozinha com os filhos, de comboio, de camioneta ( 14 horas), de taxi e comboio, enfim, ainda não havia a Ryanair. Mas tínhamos de aproveitar aquela benesse.

Passámos muitas férias separados pois os meus filhos adoravam a casa dos Avós, que agora era nossa durante 15 dias sem termos de pagar nada. Eu sentia a falta do meu marido, escrevia-lhe cartas bonitas que só agora recuperei e me fizeram saudades.

Às vezes pensamos que ter gostos diversos aproxima as pessoas. No meu caso, afastou-nos. Mesmo quando nos namorávamos, já sentíamos que eram vidas diferentes, meios diferentes, cidades diferentes. Sempre pensei poder superar tudo isso com Amor. Mas não chegou.








sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Boa Nova


Há dias fomos almoçar a um restaurante regional que eu não conhecia - penso que se chama Bar Azul - que fica junto à Casa de Chá da Boa Nova construída pelo Arq. Siza Vieira e galardoada com vários prémios. Jantei lá umas vezes com amigos estrangeiros, que apreciaram a refeição e sobretudo, o local.


Restaurada recentemente,  é agora restaurante de luxo com estrela Michelin e portanto proibitiva para os comuns dos mortais.


O restaurante onde fomos fica num local privilegiado em Leça da Palmeira, junto ao mar.


                                                           
Era o Dia da Mãe.

O dia estava magnífico, os meus netos foram logo para as rochas fazer alpinismo junto à Capela dos Pescadores, donde se disfruta uma vista magnífica da costa toda. Nos meus belos tempos, também subia lá cima com os meus filhos, desejosos de sairem do carro, enquanto a minha sogra ficava com o meu marido a conversar lá dentro. Era sempre eu que os levava ao topo das arribas, pois, como eles queria ver a vista de lá de cima.

O local era um pouco ventoso e agreste, mas muito belo, como se pode ver nas fotos.







                                                                                                                                                                Hoje , por coincidência, reli umas quatro cartas do meu marido, escritas aos 20 anos.

Numa delas falava na Boa Nova e explicava-me o que aqueles  passeios representavam para ele enquanto criança. Eu, lisboeta, não fazia a mínima ideia do local que ele descrevia, nem imaginava vir aqui algum dia.

Passados 60 anos, fico surpreendida ao verificar as vivências do Avô e dos netos são quase iguais. O gosto pelo Belo e pela Aventura, o poder da imaginação e a poesia passam de geração em geração, quase espontaneamente.

É o destino, dizem alguns. Eu diria que é a Vida.



Nas rochas, eis a lápide com a primeira estrofe dum poema de António Nobre:




Na Praia lá da Boa Nova, um dia,

Edifiquei ( foi esse o grande mal)

Alto Castelo, o que é a fantasia,

Todo de lápis lazuli e de coral.


António No




terça-feira, 9 de maio de 2017

Alentejo

ALENTEJO - acrílico s/ tela



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, 
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII" 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sentimentos




Muitas vezes o meu marido me censurou por ter um feitio contemplativo. Dizia ele que, em momentos cruciais, me ficava a olhar sem agir. O que não era verdade. 

Lutei contra essa ideia durante mais de 40 anos. Trabalhei no duro, enfrentei situações do "arco da velha", dei voltas e voltas por cima, nadei num mar revolto e cheio de redemoinhos, consegui sempre chegar a terra firme. Sozinha.



Nunca me evadi pelo prazer de o fazer. 
Se o fiz, foi para sobreviver psicologicamente à depressão ou ao drama que se desenrolava à minha volta. E em desespero de causa.

Agora, sem marido, sem trabalho, sem amarras,  volto aos meus 20 anos. 
Foram anos de evasão ao quotidiano, de amores ardentes, de sonhos, de anseios, de fé na vida. 
Os melhores anos, apesar dos condicionalismos do nosso amor.

Releio as nossas cartas todos os dias - é quase vício -  e deparo com frases lindas, algumas escritas já 30 anos depois do nosso primeiro encontro. Pelo facto de serem românticas, não são menos sentidas ou verdadeiras. 

A vida encarregou-se de destruir muitos dos nossos anseios - os meus, sobretudo - e de me revelar com crueza a futilidade dos meus sonhos. 

Reagi mal. Evadi-me. Como hoje e agora.  


Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 


Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 



Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar. 

Fernando Pessoa - Cancioneiro


terça-feira, 2 de maio de 2017

As praias de Gaia


















Ontem o meu filho convidou-me para ir com eles até Gaia. Eles iriam correr ou caminhar e eu ficaria por ali a passear ou sentada numa esplanada.





Quando chegámos pelas 6 à Madalena, as ondas estavam enormes e o sol esplendoroso.

Sentia-se o cheiro a maresia, mesmo inebriante. Corria uma aragem amena e a temperatura era excelente.


Eles afastaram-se e eu pude gozar da vista à minha vontade. Desci pelas paliçadas até à areia e sentei-me nas escadinhas de acesso. A luz era lindíssima, suave, quase irreal.
As praias do norte são lindas, cada vez mais aprecio este tipo de costa, menos burilada mas tão selvagem e sadia.


Há momentos na vida que são compensadores de tantos outros tristes ou mesmo dramáticos. Peço a Deus que me conserve jovem e independente, capaz de estar só com prazer ou acompanhada sem ser um estorvo.



Jantámos num restaurante da Praia do Canidelo - uma carne de porco à alentejana que estava divinal e um creme de marisco também muito bom.

Foi uma das tardes mais perfeitas que tenho tido nos últimos tempos. Deus é grande.