Disse
Nietsche:
Sem Música a vida não teria sentido.
Não sei se isto é verdade para todos os humanos, mas creio que para mim será.
A vida não teria tanta cor, nem tanta beleza, nem contentamento espiritual, nem consolo em horas menos boas...
Tenho passado muitas horas sozinha este ano, sobretudo nestes últimos meses. Habituei-me a pegar no comando e a sintonizar os canais Mezzo ou Brava para ouvir música clássica. É um hábito que me fará falta quando não estiver cá. Tenho meu iPod, mas não é a mesma coisa!
Não sei que idade tinha quando ouvi musica clássica pela primeira vez. Lembro-me do escritório do meu Avô, com um rádio pequeno, donde saíam sons lindos. Lembro-me de me sentar no colo dele e de estar ali aninhada a ouvir, sem fazer mais nada. Parece-me que ainda consigo sentir o cheiro do seu roupão azul escuro aveludado. Nunca teve gira-discos, nem gravador, faleceu precisamente a 1 de Outubro em 1961, sem saber o que era uma cassete, um DVD ou Internet. Mas apreciava a música como se tivesse tido isso tudo. E mais, ensinou-nos a gostar dela também. Foi a dádiva maior que nos deu.
God bless him.
O meu Pai percebia bastante de Música sem nunca ter tocado nenhum instrumento. Adorava comprar discos vinil e a nossa discoteca era bastante completa, embora ele não fosse apreciador de música de câmara ou de canto, em especial. Gostava de música orquestral e compositores românticos. Bach, por exemplo, não era muito do seu agrado.
Habituámo-nos a ouvir a minha Mãe a tocar piano depois do almoço, Chopin, Debussy e pouco mais. Deixou de tocar de um momento para o outro, nem sei bem porquê. Todos nós tocávamos piano e ela cansou-se. Houve uma altura em que relegaram o piano para um quarto no rés do chão que nós chamávamos "quarto das brincadeiras". Dava para o jardim e tinha o ambiente ideal para se tocar descansado.
Nos anos já depois de casada, a música continuou a ser a minha companhia constante. Era raro não ter o giradiscos a tocar enquanto trabalhava, via pontos, preparava aulas ou cozinhava. Dava-me paz.
Também ouvia muita música brasileira e portuguesa na altura, assim como música anglo-saxónica excelente. Ainda hoje oiço alguns desses cantores como Cat Stevens, Joe Dassin, Leonard Cohen, Elton John, etc. com saudade. O meu ex-marido não gostava de música clássica, mas ouvia música ligeira com prazer, sobretudo enquanto jovem. Depois deixou de querer ouvir e irritava-se com os filhos por eles terem sempre música a tocar...
O meu filho João habituou-se deste bem pequenino a ouvir tudo e cantava na varanda da nossa casa de Chaves para as pessoas que falavam com ele da rua. Sempre foi apaixonado pelo piano e flauta e agora, ele e a minha nora acompanham os filhos em festas e concertos.
Ultimamente, não vou a muitos concertos, nem na Casa da Música. Não me contento com quase nada, é raro gostar das interpretações ao vivo e não vibro como dantes. Não me apetece sair à noite. Não me apetece ver gente a ouvir música. Aborrece-me o barulho da sala, a falta de respeito, as palmas fora de sítio, enfim...estou a envelhecer e a ficar anti-social. Acontece.
Gosto mais de ouvir música aqui na minha sala, sozinha, sem mais ninguém.
Deixo-vos aqui a foto duma partitura que pertenceu à minha Avó. A dedicatória, escrita pelo meu Avô em 1927, fala por si.