quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Nostalgia

Há dias em que me levanto com dificuldade.

Não me apetece acordar....nem sair da cama....nem enfrentar o vazio....nem viver mais do que o necessário e o necessário é demais....

Não é depressão, é cansaço da rotina, um ansiar por outra coisa, uma nostalgia de momentos vividos noutros lugares.

Evadir-me é a palavra de ordem. Seja passeio, seja mar, seja cinema. Hoje será pintura. E cinema.

Só posso evadir-me levantando-me, de modo que lá me ergo e ponho decente. Bebo um descafeinado e como dois pãezinhos com manteiga. Já estou mais humana.

Vou ao quarto da minha filha, olho para tudo à volta e fico feliz por ainda ter aquele espaço para estar com ela virtualmente. O Buda olha para mim com ar bondoso. O cartaz do Hobbit leva-me para um mundo ao qual não pertenço. Os sonhos da minha filha estão ali todos...mas não são exactamente os meus.

Passo ao atelier e aí já entro no meu mundo.
Quadros de todos os géneros, com ou sem moldura, aguardam um destino...não sei qual é, nunca pintei para vender...prefiro oferecer...mas só a quem aprecie.

Pego no papel de aguarela canson. Encho-o de água meio suja do copo onde estão alguns pincéis. Deito pequenas porções de tinta acrílica sobre o papel molhado.  Verde clarinho, azul prússia, amarelo, laranja, roxo, e branco muito branco. Passo os dedos por cima da tinta, é suave, sedosa, agradável ao tacto. Espalho as cores muito pálidas por zonas específicas do papel e imagino os campos, os vales, os céus, os sonhos...tudo meio nublado e onírico...

Deixo secar.

Ficou assim...


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Los Arboles de la Vida




O meu Irmão Mário Cordeiro publicou recentemente um livro de poemas em Espanha e na América do Sul intitulado Los Arboles de la Vida.

Coloco aqui um dos poemas de que mais gosto : Pedido






Entretanto produzi mais três quadrinhos bucólicos, tipo aguarela. São os primeiros de 2017.









sábado, 31 de dezembro de 2016

Farewell 2016



Os portões estavam fechados. Não percebi porquê. Que eu saiba hoje não é feriado.

Felizmente o portão dos estudantes, lateral e mais estreito, estava aberto e por aí entrei.

O jardim no inverno está inundado de sol e até queima...

As árvores estão sem folhas, esguias, erguendo-se para o céu dum azul límpido como se não vê no verão. Tudo deixa entrever a fase de pousio, de descanso, de retiro.

Não há nenúfares, só papiros. Não há flores, mas as camélias continuam a forescer e centenas de botões preparam a chegada da primavera.

Por entre os troncos que assumem formas estranhas mas interessantes, passam os raios de sol muito ténues. a luz é linda como se estivéssemos numa catedral.

Ouvem-se os passarinhos, poucos e esparsos. Com este sol devem sentir-se bem como eu.

Último dia do ano, que muitos dizem foi mau.






Comparando uma foto do Natal do ano passado e deste ano noto uma grande diferença. O meu ex-marido não está. Na foto do ano passado via-o a sorrir para os netos a fazerem o seu show. Este ano só tiraram uma foto em casa dele e notam-se as sequelas da doença grave que não tem fim. Nada será igual no ano que vem...

Não, não espero que o a próximo ano seja muito melhor. O meu filho mais velho vai finalmente conseguir assentar mais aqui pelo  Porto e viajar menos para os EU, já que a Veniam fechou a sua base na California e abriu uma nova em NY, bem mais perto. Assim seja, para bem de nós todos que gostamos de o ter por perto.






A minha filha parte depois de amanhã para Leeds, de novo. Vai-me fazer muita falta...mesmo muita. Nestes dias habituei-me à presença serena dela, à sua companhia, a sua meiguice e sorrisos. Não fizémos tudo o que queríamos, ir ver as iluminaçõesa da Baixa e comer gambas ao alho em Matosinhos. Mas estivémos bem, aqui à lareira....

Vou-me sentir mais só. Mas inspirada e com forças para viver.


Adeus 2016.

Venha 2017.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Four seasons



Eis o produto terminado.

Gosto.





Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.



“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

Four seasons: Summer



Quadro a acrílico sobre MDF - Summer


No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 

Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ... 
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir ... 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI" 


Vivaldi:  Summmer

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Four seasons: Winter





Velho, velho, velho

Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,

Vem de cachecol,

O chão onde passa

Parece um lençol.

Esqueceu as luvas

Perto do fogão:

Quando as procurou,

Roubara-as um cão.

Com medo do frio

Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente

Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade (1923 –2005)  in Aquela nuvem e outras  


sábado, 24 de dezembro de 2016

FELIZ NATAL


Inspiração



Há épocas em que nada pinto, meses a fio em que não pego num pincel.

Faz-me falta, mas não me sinto inspirada e nada me sai bem.

Este mês foi o contrário. Fiz uma série de quadrinhos que me satisfazem. Esta colecção é de aguarelas em cor pastel.  Ofereci-os a quem aprecia.



              Nestes últimos dias, resolvi começar uma série intitulada Four seasons. Já fiz o primeiro Spring e o terceiro Autumn.
Penso que ficaram interessantes, entre o abstracto e o figurativo.






Podem ser acompanhados por Vivaldi, que é sempre uma música festiva e inspiradora.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Tesourinhos








                                                                                                                                                             Tenho andado a arrumar coisas várias em gavetas que parecem baús, cheias de objectos sagrados, prendas que nunca usei, jóias falsas, mas bonitas, lenços, echarpes, cachecois que davam para viver duas vezes, lencinhos, toalhetes, carteirinhas, cartas, fotografias, máquinas fotográficas, enfim, um manancial de tesourinhos que um dia não sei onde irão parar. Não gosto de re-ver estas coisas pois trazem-me à mente muitas memórias esparsas mas um pouco inquietantes. Por outro lado, tenho prazer em ter algumas coisas só minhas e que me dizem muito.





Guardo o meu anel de noivado e aliança num estojo, um colar de pérolas da Majorica, que me ofereceram pelos meus 18 anos, mas que o meu filho partiu em 1978 e nunca mandei arranjar, um alfinete que comprei com o dinheiro da editora, um relógio que a minha Mãe usava sempre e... pouco mais. São todos os meus tesouros.


Também andei a vasculhar as minhas pinturas e encontrei algumas de que já não me recordava. Tinha as fotos no 1º blogue de modo que consegui recuperar o ficheiro de pinturas só minhas. Dá sempre jeito saber o que já fiz há quase dez anos...


Pintei muito em guache e depois parei.  Aqui ficam alguns quadros que fiz em 2008-10. Alguns ofereci como este da praia, que foi muito bem conseguido, na minha opinião. O último está aqui na minha sala juntamente com dois da Teresa Vieira que comprei. Gosto muito dele pois parece mesmo lascas de madeira.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Inverno

Quando Está Frio no Tempo do Frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, 

Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 

O natural é o agradável só por ser natural. 






Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"