terça-feira, 28 de abril de 2020

Way to Blue



Don't you have a word to show what may be done?
Have you never heard a way to find the sun?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say if you know the way to blue?

Have you seen the land living by the breeze?
Can you understand a light among the trees?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Tell us all today if you know the way to blue?

Look through time and find your rhyme
Tell us what you find
We will wait at your gate
Hoping like the blind

Can you now recall all that you have known?
Will you never fall when the light has flown?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say if you know the way to blue?

Nick Drake


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Primavera surreal




É um dos quadros que mais gosto mas não se adequa bem à primavera deste ano.

Esta é dum outro mundo, o ficcionado, aquele que nós adoramos e receamos simultaneamente.


A nossa condição de presos nas próprias casas não rima com a pujança de verdes lá fora, a pressa das folhas em desabrocharem e cobrirem os ramos esquálidos do inverno.  É um grito da Natureza que nos fere os ouvidos, que nos dói e ao mesmo tempo extasia.

Como é que, estando o Homem confinado, preso e retido em casa, tudo lá fora continua a progredir naturalmente, com a mesma cadência e até com mais beleza?

Não é justo, pensamos nós, que as gaivotas e pássaros continuem à solta, pousando nos candeeiros em frente de casa e lançando-se em voos rasos diante dos nossos olhos.
Não é racional que nós não possamos ir lá fora à rua, à praia, aos campos, ao mar...pois se tudo era nosso até há dois dias...

Alberto Caeiro aceitava toda essa condição. Tinha uma humildade que eu não sinto. Este quadro pintado há oito anos exaltava a primavera. Hoje seria bem diferente.


Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Recitado por Pedro Lamares

sábado, 11 de abril de 2020

Jesus Christ Superstar




Em tempo de pandemia, a Broadway abriu as portas ao mundo todo.

Todas as 6ªs feiras transmitem um show exactamente como foi actuado ao vivo.

Hoje foi Jesus Christ Superstar de Andrew Lloyd Webber, que vi em Londres precisamente há 50 anos, em 1970.

É um musical avassalador, que conjuga o drama da Paixão com a mentalidade hippie da época.
Esta versão é moderna e insinuante, assim como comovente e mesmo trágica.

Vejam, é uma boa experiência pascal.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

A liberdade




Só sabemos o que ela vale quando no-la tiram.

Sejam os pais, sejam os cônjuges, sejam os filhos, seja a polícia, seja a guerra, o fanatismo...ou uma epidemia letal.

Não vou em rezas, nem em pragas, nem acredito em castigos de Deus.

Limito-me a esperar com medo.
Nunca me senti tão desprovida de liberdade.
Mas também nunca me senti tão privilegiada na minha prisão dourada.

Tenho tudo o que preciso e até a família por perto.

Da minha varanda vejo o mar ao longe. E vejo a primavera a renascer, linda, verde, cheia de viço e alheia aos dramas humanos.

Hoje tirei esta foto que me pareceu quase metafórica.

A liberdade é o bem mais precioso que temos. Sejamos merecedores dela.