terça-feira, 27 de agosto de 2019

Olafur Eliasson, " O nosso futuro é agora" em Serralves


“It is not just about decorating the world… but about taking responsibility,” Olafur Eliasson said of his practice in a 2009 TED Talk. Eliasson uses natural elements (like light, water, fog) and makeshift technical devices to transform museum galleries and public areas into immersive environments. 


Fui ontem ver a exposição anual de Serralves, onde não ia há largos meses, nem sei porquê. Só gosto do parque sem ninguém e é raro que isso aconteça, mas ontem ou porque estava calor de praia ou porque era Agosto , ou porque os turistas tinham ido todos para outros lados, Serralves estava vazio.




Levei dois netos e filha, almoçámos no restaurante buffet que não é caro, mas podia ser bem melhor, e depois vimos cuidadosamente a exposição que me parecera aliciante no facebook, dado que gosto de instalações em que os elementos são naturais e os efeitos espectaculares. 



Só há umas cinco ou seis "cenas" ( como diriam os meus netos), mas estas ficaram-me na memória.
Infelizmente não comprei nenhum livro, nem folheto com o nome das obras, de modo que vou colocar aqui as fotos sem legendas.




Esta sala está toda forrada de espelhos, de modo que nos vemos por baixo dos círculos de metal em inúmeras perspectivas diferentes.
 





                  




 Como se pode comprovar nestas fotografias do parque, não havia ninguém mesmo....milagre.







quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O bailado das gaivotas


Há tardes que valem oiro.

Há imagens que substituem palavras, sentimentos e razões para se acreditar.

Ontem vivi um momento mágico na praia de Matosinhos.




No abraço de um lindo pôr-do-sol

A alma se inflama no desejo de sonhar…

José Cerejeira Fontes



– Nas ondas da praia / Nas ondas do mar

Quero ser feliz / Quero me afogar.

– Nas ondas da praia / Quem vem me beijar?

Quero a estrela-d’alva / Rainha do mar.

– Quero ser feliz / Nas ondas do mar

Quero esquecer tudo / Quero descansar. 

Manuel Bandeira 


Fôssemos nós como devíamos ser

E não haveria em nós necessidade de ilusão

Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida

E nem repararmos para que há sentidos … “

Fernando Pessoa



Tente. Sei lá, tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem. Pelo menos sorria, procure sentir amor. Imagine. Invente. Sonhe. Voe 

Caio Fernando Abreu 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Minimalist poetry


Há um grupo do Facebook que aderiu a este tema, o que eu própria fiz há meses. Há fotografias que são verdadeiros poemas, outras que podem ser transformadas num quadro se o fotógrafo assim quiser.

Ponho aqui algumas das fotos que já enviei para a página:








Muitas outras teria....mas escolhi só algumas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

sábado, 11 de maio de 2019

KINDLE - é uma magia.


O que é um kindle?

É um livro sem páginas, mas com todos os conteúdos condensados, de modo a poderem guardar-se milhares de obras num objecto minúsculo como um telemóvel android.

Descobri este processo há mais dum ano e não quero outra coisa. Já li mais de 50 livros neste últimos anos, sempre com um enorme prazer e o mínimo de incómodo. Posso fazê-lo em qualquer lado, na rua, no autocarro, na esplanada, na praia, na cama, no sofá, no jardim, no café...

Os intelectuais, os amantes de bibliotecas, s bookworms, os coleccionadores de papel, os apreciadores das belas encadernações, os passeantes das livrarias, os editores e outros têm reclamado contra este processo tão simples de adquirir tudo o que dantes estava reservado aos deuses. E é com pedantismo e um certo ar de superioridade que recusam aplaudir este meio. Quanto aos editores, estamos conversados. Ganham mais se venderem os seus produtos em papel, mesmo que já haja milhares de livros iguais, sobre os mesmos temas,  e n editoras a "vender" o peixe em Portugal. Milhares de árvores vão abaixo para produzir o papel necessário para produzir livros que ninguém lê.


Houve a mesma celeuma, quando surgiram as cassetes e os CDs, que segundo os peritos e melómanos vinham distorcer a audição da Música no sentido pleno da palavra.
Hoje já nem esses se ouvem, estamos na era do Spotify. :). os meus netos não dispensam esta aplicação. Nem eu.

Ontem à noite, não conseguia adormecer e às 4 da manhã, vim para a sala.

Entrei no site da Amazon e procurei Fernando Pessoa. Há tudo em todas as línguas. Encontrei, para espanto meu, as obras completas deste autor em português pelo preço de $2.30.

O botão "buy with a click" era tentador. Se nele clicasse, tinha a obra toda no meu Ipad, macbook e tm em 5 segundos. Depois era só descarregar em 2 minutos e estava apta a ler o que quisesse sem sequer me levantar do sofá.  Foi o que fiz.


Li "A Mensagem" toda ontem aqui. Impressionou-me. Depois dormi melhor...

Há quem pense que é preciso ter o objecto Kindle para ler, mas não. O Ipad é fantástico e até se pode regular a luminosidade e o tamanho da letra.

Cada vez apoio mais tudo o que é digital. O que não quer dizer que não goste de livros.

O meu atelier está cheio deles, o quarto da minha filha é uma biblioteca, até no meu quarto tenho livros. Mas eles ocupam espaço, enchem-se de pó e de bicho, nem sempre são bonitos...


fica aqui um video que explica como se usa o Kindle.


E um extracto de A Mensagem, já muito lido e ouvido, mas sempre espectacular:

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp’rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. 






sábado, 27 de abril de 2019

Fernão Capelo Gaivota





Superfície azul do céu,
asas em curva de dores,
Fernão Capelo levanta e voa,
porque voar é importante,
mais que comer e viver.




Caro é pensar diferente,
viver em infinitos,
voar dias inteiros 
só aprendendo a voar.



Gaivota que se preza

tem de sentir as estrelas, 
analisar paraísos,
conquistar múltiplos espaços.




Para Fernão nada é limite:

voa, treina, aprende, 
paira sobre o comum do viver.
Se o destino é o infinito,


o caminho é nas alturas!


                                       Fernão Capelo Gaivota

       Versão original:






Lost
On a painted sky
Where the clouds are hung
For the poet's eye
You may find him
If you may find him
There
On a distant shore
By the wings of dreams
Through an open door
You may know him
If you may


Be
As a page that aches for a word
Which speaks on a theme that is timeless
While the one God will make for your day
Sing
As a song in search of a voice that is silent
And the sun God will make for your way

And we dance
To a whispered voice
Overheard by the soul
Undertook by the heart
And you may know it
If you may know it

While the sand
Would become the stone
Which begat the spark
Turned to living bone
Holy, holy
Sanctus, sanctus

Be
As a page that aches for a word
Which speaks on a theme that is timeless
While the one God will make for your day
Sing
As a song in search of a voice that is silent

And the one God will make for your way


         Richard Bach/ Neil Diamond

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Mudança de visual


Hoje para comemorar o Dia da Liberdade (?),  usei a dita para aplicar ao blogue uma foto dum quadro que pintei há dez anos e a que chamei "Árvores doidas" visto que as cores estão trocadas e as árvores parecem esbracejar numa ânsia de libertação.

É a minha imaginação a falar!!

Aproveito para colocar aqui um poema Liberté de Paul Éluard, que o M. me ofereceu quando nos namorávamos, em 1965.

LIBERTÉ

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom

Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom

Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom

Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Paul Eluard

Poésie et vérité 1942

Uma ribeira que é uma margem


Chama-se Ribeira, mas não o é no sentido literal, não tem água nenhuma,  é terra firme que se debruça sobre um dos mais lindos rios que conheço. É a margem....e a ponte é uma miragem....



Passeio na Ribeira como se fora turista....e de certo modo sou-o, pois que não nasci nesta bela cidade.
Uma amiga minha dizia que eu era a lisboeta mais nortenha que conhecia. Na altura ri-me, pois nem sequer vivia aqui, só me tinha casado com um tripeiro e defendia a sua cidade com unhas e dentes, contra tudo e contra todos.



 Ele dizia-me por vezes verdade como punhos. Que os lisboetas achavam que eram grandes trabalhadores, mas que, afinal, passavam o dia a correr dum lado para o outro sem produzir nada de relevo. O que se produzia a sério era aqui no norte, onde quem trabalhava dava o litro e tinha orgulho no que fazia.

Por vezes, eu irritava-me e contradizia-o, mas ele dava-me exemplos de amigos meu que pouco faziam e viviam bem...

Passear na Ribeira e ver todos estes turistas lembra-me Lisboa e Cascais, onde se viam muitos estrangeiros e se sentia o cosmopolitismo no ar. Só agora chegou ao Porto, um aroma internacional, que enche cafés e restaurante e que faz filas para ver coisas belas que esta cidade ostenta com orgulho. Passear aqui passou a ser quase um roteiro obrigatório.



Ribeira




O sol bate no goraz
nas sardinhas
nos legumes
as laranjas
e as maças
enchem o ar
de perfumes
torna-se duro o inverno
logo p´la manhã vem
o aconchego terno
do velho xaile de lã
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
Desafio pairando sobre o rio
a ponte é uma miragem...
Nas tasquinhas decoradas
curte-se o chique burguês
comem-se boas dobradas
ostenta-se a embriaguês
Há um navio fantasma
na voz de uma peixeira
e um velhote com asma mente à
própria ribeira
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
Desafio pairando sobre o rio
a ponte é uma miragem...
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem
A ponte é uma passagem
p´rá outra margem

Jáfumega

terça-feira, 16 de abril de 2019

A minha Via Sacra :)


Escrevo do jardim Botânico, onde passo os dias a meditar e a gozar dos prazeres da vida com a Natureza, os únicos que, neste momento, me são sagrados.


Mais um dia no meu refúgio, onde o verde é quase demasiado verde, onde as pedras rugosas se transformaram em blocos de musgo aveludado e as plantas parecem irmanadas à volta do charco numa prece silenciosa, que nem o ruído impiedoso da VCI perturba.



Pássaros chilreiam felizes e também se ouve o rouco coaxar das rãs. Uma pedra atirada ao charco leva algum tempo a desenhar círculos, tão denso é o lodo.
O cheiro do eucalipto é inebriante e relembra-me as tardes frias passadas na casa dos meus avós à roda da braseira ardente. Tenho os dedos impregnados por estas bagas e de repente, ao cheirá-los,  volto à infância feliz doutros tempos. Até me parece ouvir a voz do meu Pai dizendo que braseiras fazem mal à saúde....os meus Avós não tinham aquecedores a óleo, nem dinheiro para pagar a eletricidade. Moravam num 5º andar sem elevador e até aos 82 anos, o meu Avô subia aquelas escadas praticamente todos os dias. Estava frio, mas eu sentia-me bem quentinha naquela casa. Nunca a esquecerei. A minha infância sem essas memórias seria muito mais pobre.


Já tudo partiu, já tudo findou há quase 50 anos,  mas eis que tudo ressurge num subconsciente que não morreu.

Este cheiro das bagas de eucalipto também me faz recordar passeios com o meu M. no Vale de Canas em Coimbra quando conseguíamos fugir de todos e estar sós. Era aí que nos beijávamos sem medo, nem pudor, como se não houvesse amanhã...

Adoro este cantinho onde só se ouvem algumas vozes de jovens turistas numa algaraviada imperceptível. Os pássaros respondem lhes na mesma toada ainda mais sonora.


Paraíso ou não depois da morte, já o encontrei neste recanto.
Tomo-o por garantido, meu, enquanto puder deslocar me até aqui.
Tão meu, quanto estas árvores centenárias, que, se pudessem falar, contariam histórias inimagináveis de amores correspondidos, sonhos intangíveis, poemas inacabados...vidas passadas que poderão ter-se incarnado nalgum ser ali escondido...quem sabe?

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A nova Páscoa



Quando se pensa em Páscoa hoje em dia, vem-nos à cabeça folhetos de férias, passeios de carro, paisagens magníficas por regiões mais remotas, cheiros primaveris, flores e iguarias próprias da época. Lazer, descanso depois dum período longo de inverno e de trabalho.

Poucas pessoas pensam no significado religioso da palavra, na História que subjaz por detrás da memória. O sentido profano ultrapassa de longe o religioso.

As igrejas estão vazias a não ser nos domingos de Ramos e de Páscoa, talvez porque a eles se aliam também a cerimónias populares, procissões, tradições, etc.

Basta ver os programas de TV, que se centram nos comeres da província, nos pratos regionais, nas doçuras de fazer água na boca e no trabalho à volta do forno ou das panelas. Poucos programas falam de religião e dos costumes ou rituais verdadeiramente espirituais em torno do acontecimento mais marcante da vida de Cristo: a sua morte e para quem acredita,a sua Ressureição.

Hoje escrevi isto num blogue em que se falava da Semana Santa:

"Fui crente até aos 20 anos duma forma consistente e profunda, que me levava a ler os Evangelhos e a seguir as normas da Igreja como se não houvesse mais alternativas. 


Casei com um agnóstico, inteligente e lúcido, o que me alterou por completo a visão da vida, da nossa existência neste mundo e até do futuro para além dela. 
Como muitas pessoas da minha idade um pouco "fanáticas, e com o cérebro lavado pelos professores e padres da "antiga senhora",  acabei por dar uma volta de 180º após o 25/4 e de passar a estudar o outro lado, que nos era vedado. 
Na Faculdade, em 1966~67,  estudei Camus e Sartre, fiz a cadeira de História do Cristianismo e li outros autores crentes ou completamente ateus. Li Renan, Daniel Rops, Simone de Beauvoir, Papin, Simone Veil etc. numa fase em que eu era um verdadeiro bicho de biblioteca. 


Na semana santa, chegava a ir todos os dias à minha paróquia de sempre, ler os Evangelhos, rezar ou comungar. Gostava daquele ritual e acreditava que a minha vida e a do meu namorado poderiam melhorar. Até tentei convertê-lo, mas não consegui. Ele era mais culto e inteligente que eu. 

Hoje , passados 50 anos , não acredito em nada para além da vida. Repudio em especial a Igreja Católica, instituição, que me parece ser o cerne de muitos males que afligem as sociedades católicas, as sul americanas, as asiáticas e até o nosso Portugalzinho tão beato , hipócrita e falso, fiel à clique eclesial, aos beija-mãos e mordomias dos padres em geral. As sociedades católicas são atrasadas visceralmente, preconceituosas e fechadas à inovação. Fátima é uma fraude imensa.

Claro que há excepções, e conheci na minha vida várias pessoas que me influenciaram para bem, como o prior dos Jerónimos, P. Felicidade Alves, grande amigo dos meus pais, que acabou por abandonar a Igreja e casar-se. Foi bom para mim ser criada numa família crente, os valores que hoje tento passar para os meus netos são os mesmos, ainda que muito mais liberais.


Neste momento a única vertente que me liga à Igreja é a Música. Através dela consigo ver algo de místico, de transcendente e belo. 

Para mim, Bach é um Deus. 




Ouvi-lo eleva-me....mais do que todas as imagens, filmes, livros,  textos, prédicas, palavras ou actos que possam vir de padres ou leigos da nossa sociedade. 


Só a Música me faz acreditar em algo sobre
natural.  


Deixo-vos aqui a Missa em Si menor de Bach.  



Páscoa feliz!