Hoje tenho andado numa dança macabra de sentimentos, numa autêntica paleta, que vai do mais soturno e mórbido até ao mais onírico e esplendoroso.
A realidade é, por vezes, cruel, dá-nos maravilhas com uma mão e tira-nos com a outra.
Contemplamos embevecidos espectáculos como estes e assistimos, quase logo a seguir, a cenas de puro horror e desgraça humana.
"É a vida", dirão os mais despreocupados,
"Deixa p´ra lá" aqueles que se estão nas tintas
"Como é que é possível?" perguntam-se os que realmente se doem por dentro como eu.
"Que fazer?", reagem aqueles que, de alma e coração querem remediar os males do mundo.
Mas não há respostas.
Estive umas três horas na Foz. Almocei na Tavi com a minha filha, estava-se bem, ainda que a comida tipo gourmet não me satisfaça assim muito. Saímos de lá para tomar café no bar dos Ingleses, que continuava igual a si próprio, o melhor sitio do mundo para se estar nesta cidade e gozar do mar, apanhando os salpicos, mas não a espuma das ondas que esbarram contra a rocha empedernida a que chamo de esfinge. O estrépito das ondas, hoje, era fulgurante e muitas pessoas hesitavam em se sentar nos belos sofás que agora têm na esplanada, onde nos podemos refastelar ( é o termo), lendo, olhando para o mar, dormitando, ouvindo música ou pura e simplesmente meditando na vida. Os sofás até dão para nos deitarmos com a cabeça apoiada a olhar para o céu ou para o mar.

Há meses, porém, que não consigo desligar a minha mente da tragédia do Meco e, ao olhar para as ondas a rebentar na areia, vem-me uma angústia enorme, como aquela que senti quando o pianista Bernardo Sassetti caiu das falésias há uns anos. Durante meses não conseguia deixar de pensar no que se teria passado naquele dia e o porquê daquela morte estúpida.
A morte é sempre odiosa, mas há mortes que nos enraivecem, mesmo quando não conhecemos aqueles que ela levou duma modo hediondo e cruel.
Não compreendo como é que seis jovens foram levados àquele limite e com que intenção, quero que aqueles pais sejam reconfortados com uma resposta plausível, quero que alguém seja culpabilizado, revolto-me com a atitude de quem se cala perante tanto sofrimento. Numa capa de revista na tabacaria vi o sorriso do Dux, jovem bonito como tantos outros, cujo silêncio neste momento suscita toda a espécie de sentimentos até o ódio nas pessoas anónimas que acompanham as notícias.
Durante horas estive numa espécie de nirvana - em êxtase - em plena comunhão com a Natureza. Ouvir Vivaldi e Bach diante dum mar de prata e um céu salpicado de nuvens faz esquecer tudo, esvaziamos a nossa mente de pensamentos maus e cantamos hinos ao Criador: "Jauchzet Frohlocket"...
Até que a realidade nos chama de novo e nos diz que o nosso bem estar é um privilégio pois a vida é cruel.
No autocarro, onde muitos velhotes conversam sobre suas doenças, entra uma mulher com um filho ao colo e uma menina, uma miudinha. O miúdo grita : Não, não, mais de vinte vezes. Não sabemos o que é que ele NÃO quer. A filha olha para a mãe com olhos aterrorizados, a mãe berra para ela a ajudar. Diz-lhe exactamente isto : Porque tu és burra, és burra! Quem é que te disse para te levantares? Não vês que não é nesta paragem que saímos, que é no Lordelo? C............, não fazes p......dum c........., minha m........! ( sic). A menina terá uns dez anitos ( a idade do meu Daniel), é franzininha e parece assustada. Pudera! Saem do autocarro no Lordelo e os passageiros olham uns para os outros incrédulos. Ninguém diz nada, está tudo petrificado. Pergunto-me ainda agora: Como será a vida daquelas crianças?
Tanta beleza por um lado, tanta miséria por outro.....

A realidade é, por vezes, cruel, dá-nos maravilhas com uma mão e tira-nos com a outra.
Contemplamos embevecidos espectáculos como estes e assistimos, quase logo a seguir, a cenas de puro horror e desgraça humana.
"É a vida", dirão os mais despreocupados,
"Deixa p´ra lá" aqueles que se estão nas tintas
"Que fazer?", reagem aqueles que, de alma e coração querem remediar os males do mundo.
Mas não há respostas.
Há meses, porém, que não consigo desligar a minha mente da tragédia do Meco e, ao olhar para as ondas a rebentar na areia, vem-me uma angústia enorme, como aquela que senti quando o pianista Bernardo Sassetti caiu das falésias há uns anos. Durante meses não conseguia deixar de pensar no que se teria passado naquele dia e o porquê daquela morte estúpida.
A morte é sempre odiosa, mas há mortes que nos enraivecem, mesmo quando não conhecemos aqueles que ela levou duma modo hediondo e cruel.
Não compreendo como é que seis jovens foram levados àquele limite e com que intenção, quero que aqueles pais sejam reconfortados com uma resposta plausível, quero que alguém seja culpabilizado, revolto-me com a atitude de quem se cala perante tanto sofrimento. Numa capa de revista na tabacaria vi o sorriso do Dux, jovem bonito como tantos outros, cujo silêncio neste momento suscita toda a espécie de sentimentos até o ódio nas pessoas anónimas que acompanham as notícias.
Durante horas estive numa espécie de nirvana - em êxtase - em plena comunhão com a Natureza. Ouvir Vivaldi e Bach diante dum mar de prata e um céu salpicado de nuvens faz esquecer tudo, esvaziamos a nossa mente de pensamentos maus e cantamos hinos ao Criador: "Jauchzet Frohlocket"...
Até que a realidade nos chama de novo e nos diz que o nosso bem estar é um privilégio pois a vida é cruel.
No autocarro, onde muitos velhotes conversam sobre suas doenças, entra uma mulher com um filho ao colo e uma menina, uma miudinha. O miúdo grita : Não, não, mais de vinte vezes. Não sabemos o que é que ele NÃO quer. A filha olha para a mãe com olhos aterrorizados, a mãe berra para ela a ajudar. Diz-lhe exactamente isto : Porque tu és burra, és burra! Quem é que te disse para te levantares? Não vês que não é nesta paragem que saímos, que é no Lordelo? C............, não fazes p......dum c........., minha m........! ( sic). A menina terá uns dez anitos ( a idade do meu Daniel), é franzininha e parece assustada. Pudera! Saem do autocarro no Lordelo e os passageiros olham uns para os outros incrédulos. Ninguém diz nada, está tudo petrificado. Pergunto-me ainda agora: Como será a vida daquelas crianças?
Tanta beleza por um lado, tanta miséria por outro.....
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