segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Tédio



 2a feira dum dia sem sol. Ausência de calor, de beleza e de paz. Ansiedade e receio. Há dias assim. 

Acordo com um peso enorme nos olhos, na cabeça e nas articulações. Só me apetece deitar de novo e fechar me para a vida. Ela que se desenrasque. Não precisa de mim para nada. 

As árvores continuam a crescer, as máquinas de cortar relva a fazer um barulho irritante, as ambulâncias do INEM a correr que nem loucas, os miúdos das excursões a gritar no Botânico, as gaivotas e galos esfomeados aos pios. 



Nada mudou. a Botânica continua a oferecer bolinhos de bacalhau e arroz de feijão, que nem são maus, o jardim ainda não tem flores, as glicínias foram decepadas, os cogumelos abundam, está tudo em stand by e eu também.

Não vos desejo mal nenhum.

Vivam as vossas vidas sem mim, como sempre viveram. Respiraram sempre sem mim, cresceram sem mim, choraram sem mim.


Eu precisei mais de vós. Mas neste momento, quero vos felizes sem mim.

I'm done, you see?

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Envelhecer

 Todos envelhecemos. Melhor ou pior. 

A saúde, bem precioso, falha nos quando menos se espera. Começa pelos ossos, que se recusam ao esforço, músculos que doem ao fim do dia, depois há os invisíveis, os nervos, a tensão arterial, o colesterol, a glicemia, as vitaminas, o ferro, tudo o que torna esta estrutura capaz de funcionar no dia a dia.

Olho para as árvores do meu Botânico e vejo que as cortam quase completamente a meio do inverno. Cruelmente. Parece que nunca mais florirao. Mas eis que chega a Primavera e os brotinhos começam a aparecer, primeiro envoltos num manto verde ou castanho, depois cada vez mais abertos até que, dum dia para o outro, a flor se liberta esplendorosa.





O nosso corpo devia ser assim. Cortava se para renascer. Como o cabelo ou as unhas. 

Mas a maior parte dos nossos órgãos são insubstituíveis e se danificados não voltam ao início. 

Hoje já há muitas formas de corrigir os erros - nossos - genéticos ou acidentais.

Tenho um cancro no fígado. Estou calma, aguardando os resultados da quimio e a operação de Março. Pode ser que resulte e que consiga superar o mal. Mas também pode ser que ele volte, esse monstro que aterroriza a todos.


Dos

A vida é curta ou longa. Temos de nos convencer disso. O sol nasce e morre todos os dias.

Não podemos adivinhar o que nos espera. Temos de confiar. E  aproveitar as benesses que nos concedem.

A Fé é a nossa única solução.

Mesmo quando se não é crente. 

Domingo de Carnaval

 

Texto escrito em 17/2/23



O Manel faria hoje 77 anos. Já partiu há seis anos. Nunca o esqueci. 

Foi se naquela manhã de Fevereiro e as magnólias ficaram repletas com as minhas lágrimas. 

Era o Pai dos meus filhos lindos. 



Este era o seu poema favorito quando nos enamoramos em 65. 
Ofereceu me o livro Toi ET Moi de Paul Geraldy, dizendo que era um retrato realista da vida .  E foi.


 

O fim era triste. Como foi o nosso. A vida separou nos, os outros separaram nos, as profissões enguliram nos.

 O desejo de independencia era mais forte do que eu. Decidi partir aos 29 anos de casados e nunca me arrependi. Tinha 56 anos e queria viver. Sentia me claustrofobica naquela casa com a minha sogra a entrar de hora a hora. Os filhos estavam no estrangeiro e com o M. naquela casa imensa, estava mesmo só. 

Nunca deixamos de nos amar, apesar de vivermos separados. 

  Até ao último dia.

Sinto a sua falta muitas vezes.

Foi o Homem da minha vida. O único.


 Toi ET Moi. 


          RIP, Manel.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Ha tanto tempo

 Nao escrevo neste blogue ha meses. Desisti dele numa fase de fastio, em que a ausencia de feedback e de inspiracao me deixaram sem palavras. O FB preencheu os espacos em que precisava de comunicar com amigos. 

Em outubro tive o maior choque da minha vida ao saber que tinha um cancro no colon, algo que ja receava ha muito. Os indicios eram flagrantes e andei a fugir a colonoscopia,exame que todos me afirmavam ser chato e moroso. Mais valia te lo feito ha anos quando mo recomendaram.


A partir dai tenho sido outra pessoa. Mais positiva, realista, certa de que o meu prazo de validade esta a terminar e que devo aproveitar ao maximo as hipoteses que os tratamentos me vao dando.

Nao ligo muito aos efeitos da quimio, supero o meu desconforto com coisas que me dao prazer como ler, ir ao cinema,passear no Botanico, ir a Foz ou a Matosinhos ver o mar. Tudo isso é  maravilhoso e enche me a alma. 



Os meus filhos e netos continuam a sua vida,sem grandes alteracoes e isso é  talvez a  minha maior alegria. Ser independente é  ser feliz. 

Nas sessoes de quimio,  levo tudo na brincadeira e encontrei em mim uma paciencia que desconhecia. Ate me deu para  escrever textos. O ambiente ajuda. Admiro muito todo o pessoal que trabalha na oncologia.

Escrevo no  meu  tablet e nem sei ainda como se metem fotos aqui. Não  ligo o laptop ha mais de um mes. Mas vou conseguir.


Até  breve.





sábado, 14 de maio de 2022

Matar saudades.

 Há quase um ano que nada escrevo neste canto que era o meu refugio. 

Desde 2009 que escrevia regularmente, cheguei a ter 500 leitores diários, comentários interessantes, apoio amigo e também algumas dissidências que não me feriram o ego.

Lentamente, deixei de sentir necessidade de desabafar ou partilhar a minha leitura da vida, talvez porque ela se tornou cada vez mais critica e mordaz ou pura e simplesmente porque nem sempre se consegue partilhar a Beleza e o encantamento, mesmo quando somos criativos.

Pintei algumas coisas de que gosto sinceramente neste período e nem sempre as fotografei. Postei no Facebook muitas fotografias do Porto

 e de outros lugares onde fui feliz. Essas estão aqui neste velho Mac, que é o meu espelho e que qualquer um poderá ler quando eu partir.

                                                                     

Escrevi um diário intimo desde 2017, ano em que o M. partiu. Fiz luto e sofri bastante a sua perda. O M.era um Pai, um irmão mais velho, mais do que um marido amoroso. Sentia sempre por ele admiração, carinho e receio. Nunca fui totalmente franca, nem livre enquanto casada. Sacrifiquei muito pelos meus filhos e pela afeição que ainda sentia.

Hoje foi dia de arrumações. Queria deitar fora muita coisa e não consegui. Estou cansada, velha, farta de preocupações familiares crónicas,  já nem sequer sonho.

  Só quero estar quieta no meu sofá, bordar, olhar as árvores do Botânico lá fora, regar os meus cactos e suculentas, ver umas séries policiais, ler     em versão Kindle alguns livros interessantes, biográficos e não só.

Começo a detestar livros em papel. Pertenço a um grupo do FB chamado "Desenvoler". Acho-o original e continuo a ver o que os leitores expressam sobre a leitura.

Sempre achei que era importante ler, li centenas de livros na universidade e na adolescência, adorava poder ler de fio a pavio...mas nunca fiz a apologia da leitura, diabolizando as tecnologias, como se faz agora. Nem vice-versa.

Hoje odeio os livros-objectos, sobretudo quando se acumulam pela casa toda, enchem todo o espaço para respirar, enchem-se de pó, cansam a vista, trazem memórias...

Não preciso de viver rodeada de livros. O M. ia buscá-los às bibliotecas e nunca comprava nada, mas leu tudo o que havia para ler. Só coleccionava BD e literatura clássica. Mesmo assim ofereci mais de 200 livros dele à Biblioteca Almeida Garrett, que nem sequer um cartão de agradecimento se dignou dedicar-me. A minha filha compra livros ao desbarato, 

nem sequer os lê, mas gosta de olhar para eles. Já foi "bookworm", já não é. Infelizmente. Ontem encheu uma caixa enorme de livros novos que nem sei onde deixar. Hospitais, bibliotecas, escolas desprezam-nos. 

Todos fazem a apologia da leitura. Adoro ouvir os paladinos da cultura aqui do burgo apregoar as multiplas edições das suas obras, como se fossem inventos transformadores da Humanidade. Essa, imersa num mar de informação a que chamam midia, marimba-se para os livros, só lhe interessa o escândalo, o crime e sobretudo, dinheiro. Quanto mais melhor.  Programas sobre leitura são infimos.

Escrevo em estado de semi-depressão, eu sei. Acontece. Desculpem. Amanhã será melhor.


sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Memórias felizes

 Há meses que não escrevo nada no blogue. Falta de vontade, desinteresse, ausência de feedback dos leitores, demasiado FB. O blogue parece sempre um monólogo e reflexão, mais do que um diálogo ou conversa, como era dantes. Hoje quase ninguém lê blogues e perdeu se uma fonte criativa e cultural que faz falta nas redes. Mas ninguém tem paciência para ler mais de duas linhas e ainda menos para fazer comentários interessantes. C'est dommage.


Há 56 anos, encontrei o Amor da minha Vida. 

Em Amsterdão, num passeio de barco. Démos as mãos e aí começou uma aventura de 8+29 anos. 

Separámo-nos sem conflitos em 2002. O meu ex-marido faleceu em 2017. Nunca tivémos uma conversa sobre a nossa separação, encontrávamo-nos nas festas familiares, como se fosse a primeira vez. Os meus netos pensavam que o M. era meu namorado e um dia o André perguntou quando é que dávamos um beijo na boca! 

Acompanhei-o nos seis meses que acabaram dolorosamente na CUF no dia 25 de Fevereiro poucos dias depois do seu aniversário. 

As ultimas palavras que me disse foram:  "Hoje estou feliz. Estás aqui. E posso beber vinho pois já nada me faz mal." 

Ainda me custa pensar que ele não está cá e sonho muito mais com ele do que quando éramos casados. Sinto a falta de alguém mais velho ( apenas seis meses, mas com muito mais maturidade e bom senso) , alguém a quem possa contar tudo aquilo que me interessa ou apaixona. 


Nas minhas ilusões , acredito que ele me ouviria e me defenderia sempre. 
Foi sempre mais um Pai que um marido. Um Pai bastante exigente do qual, infelizmente,  me tive de libertar. 

Mas não faria nada de outro modo. O Amor foi perfeito enquanto existiu.

É bom poder viver a vida sem remorsos. Puz aqui uma carta que lhe escrevi dois meses depois de termos começado namoro. Foi sempre a minha atitude perante a nossa união.

É por isso que hoje escrevo aqui sobre nós dois. Por saudosismo.  Porque como dizia Adamo " Cést ma vie, cést ma vie, je n'y peux rien, c'est elle qui ma choisi. C'est ma Vie. C'est pas l'Enfer, c'est pas le Paradis."


Pode não haver amanhã...




sábado, 6 de março de 2021

Lockout à espera da primavera

 

Nunca imaginei na minha já longa vida ser capaz de viver dois meses dentro das paredes da minha casa + varanda+ pátio. Nunca vivi esta situação, mesmo a seguir ao 25 de Abril e mesmo quando estive grávida do meu João. Aí fui obrigada a viver em casa da minha irmã em Coimbra durante dois meses, mas podia sair de vez em quando com muito cuidado.

Cheguei à conclusão de que encontrei, nesta clausura, muitas formas de me redescobrir e passar o tempo, sem a depressão que domina as parangonas dos media, nem sequer dias de infelicidade extrema. Bem sei  que tenho a minha filha comigo , pois na véspera de ir para Leeds em Março, o irmão convenceu-a a ficar. Tenho os meus netos no prédio ao lado e vejo-os no pátio constantemente a jogar ou a fazer ginástica, falo com eles da janela ou eles vêm cá com máscaras e cumprindo os rituais. Mando vir tudo pela Glovo e estou satisfeitíssima de não andar com sacos e pesos, embora nem sempre tenham tudo o que quero. A minha filha tb vai por vezes ao supermercado e traz coisas urgentes. Nada me falta, tenho o frogorifico como nunca esteve.

Descobri, entretanto,  novas formas de pintar e de ler.

Ultimamente, enveredei pelas aguarelas, pois os acrilicos estavam secos e não sei quando os poderei adquirir. 

Fiz vários quadros diversos, como estes que aqui vêem de Fevereiro e Março:















Tenho lido muito em Kindle que é o meio mais prático para mim. Como vejo bem ao perto, posso escolher o tamanho da letra adequado e custa-me muito menos pegar no Ipad do que num livro normal. Alem disso compro os livros baratíssimos em inglês, que é a minha língua preferida. Li vários ultimamente sobre filmes ou séries de que gostei e outros mais documentais.

Há dias, escrevi este texto no blogue Fio de Prumo em resposta a um post em que a autora se congratulava pela abertura das livrarias ao público. A mim isso não me afectou, confesso.  Considero a questão menos pertinente do que muitas outras que paralisam o país.

"Já comprei mais livros este ano que nos anos anteriores sem sair de casa. Leio em Kindle com uma rapidez muito maior e sem ter de me deslocar a livrarias, onde já só ia para descontrair as pernas. 
Os livros em português são caríssimos, pesados, mal traduzidos na sua maior parte. Os autores clássicos portugueses podem-se ler grátis na net. Os romances actuais e os chamados livros de divulgação ou intimistas não são apelativos pelo menos para mim, exceptuamdo uma minoria. Tenho a casa cheia de livros e já dei mais de 200 à Biblioteca Municipal e aos bazares internacionais. 

Música pode-se ouvir no Spotify a toda a hora e o CMusic ou o Mezzo transmitem concertos na TV. A RTP2 também tem óptimos programas culturais. 
Acho muito mais grave fecharem os restaurantes com esplanada,  parques e jardins da cidade do Porto,  praias desertas , lugares de extraordinária beleza, onde é urgente passear. Mas ninguém escreve sobre isso. Desculpe o desabafo."


As únicas coisas que me fazem falta verdadeiramente : o mar, o cheiro da maresia, o espaço imenso dos campos e parques, poder sair sem me perguntarem onde vou. Mas isso aguenta-se...até quando????

Da minha varanda vejo o pôr do sol todos os dias e é sempre diferente. Também contemplo as árvores do jardim Botânico que já não visito há três meses. 

Mas sei que a primavera está aí. Como o meu Poeta preferido

Aqui fica o poema de Alberto Caeiro na voz do grande Pedro Lamares:





Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro in Poemas inconjuntos






sábado, 10 de outubro de 2020

Louise Gluck - poeta laureada com o Nobel da Literatura

 Nunca tinha ouvido falar dela. Minha ignorância ou ausência de notícias culturais nos nossos media?


Num só serão, comprei dois livros dela pelo Kindle . 20 euros. Já  li 30% dum e partes doutro. Tenho as obras completas num deles. Leio com letra grande e sublinho o que quero.

Hoje, inspirada pelos poemas,  fui ao Botânico passear.

Escrevi este texto:


Nada há melhor para a mente do que a solidão dum jardim deserto ao chegar do Outono. Sente-se o pulsar da vida a tremelicar em cada folha que cai, em cada flor emurchecida nas pedrinhas de saibro. Já há menos chilreios de pássaros e zumbires de insectos. O saibro está lavado pelas águas da chuva. 




Nâo gostava nada do saibro da nossa casa quando era miúda, fazia doer os joelhos e esfolava a pele toda. 

Mas as flores aqui ja nada sentem. Ainda agora me caiu uma no cabelo. Um hibisco branco já murcho.   

Os nenúfares desapareceram. Ficaram as folhas carnudas que, em breve vão imergir para o longo sono de inverno. 

Leio  poemas da laureada Louise Gluck, que era desconhecia para mim até ontem. 

A Natureza como a concebo está aqui nestes poemas, é uma cópia deformada do que, um dia , foi o jardim do Éden. 

Aos setenta anos, é bom descobrir novos poetas, novas vivências, novas mentes, novas inspirações. 

E é bom estar vivo e poder escrever o que se sente. Mesmo que seja so para nós. ❤


Acrescento aqui um dos poemas de Louise Gluck. 

E uma citação bem verdadeira.


You want to know how I spend my time?

I walk the front lawn, pretending

to be weeding. You ought to know

I'm never weeding, on my knees, pulling

clumps of clover from the flower beds: in fact

I'm looking for courage, for some evidence

my life will change, though

it takes forever, checking

each clump for the symbolic

leaf, and soon the summer is ending, already

the leaves turning, always the sick trees

going first, the dying turning

brilliant yellow, while a few dark birds perform

their curfew of music. You want to see my hands?

As empty now as at the first note.

Or was the point always

to continue without a sign?

        The advantage of poetry over life is that poetry, if it is sharp enough, may last.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A Sagração da Primavera




Há uns dias que ando nas nuvens, como dizem os Ingleses, to be on cloud nine means to be in a state of blissful happiness.

É uma felicidade relativa, como são hoje todos os cenários de futuro. Ninguém sabe bem o que nos espera, ninguém se atreve a sonhar demasiado alto, de repente os cantos dos pássaros às 6 da manhã e da tarde começam a fazer sentido, as pétalas das flores parecem mais brilhantes, o ar mais puro e a liberdade cada vez mais preciosa.





O Jardim Botânico fica em frente da minha casa e vejo muito dele da minha varanda todos os dias. É um verdadeiro hino à Natureza, quer faça chuva, quer faça sol. Os verdes - em matizes infinitos - misturam-se numa dança permanente, abanam com o vento, tomam cambiantes diversos consoante a hora do dia, desaparecem na escuridão da noite quando as luzes da rua se acendem.






Reabriram o Jardim  ao fim de três meses de confinamento.

Chamo-lhe agora o Jardim do Éden, pois fomos expulsos dum dia para o outro sem sequer termos admirado o jacarandá em flor ou respirado o odor das lindas glicíneas lilazes.

Fui lá há dois dias e ontem. Foi quase tão bom ou melhor do que ir a Matosinhos tomar um banho de mar na semana anterior. Há sensações que não se explicam, que nos ultrapassam e dominam.

Acreditamos em tudo quando nos sentamos naquele banco envelhecido de azulejos amarelos e azuis, onde Sophia se sentou em pequenita.  Acreditamos que a Vida nos reserva ainda o prazer de sonhar, de voar, de sofrer e amar.

Escrevi pequenos textos enquanto contemplava o cenário. Eis um deles:

Sentada num banco deste jardim maravilhoso, tento .transcrever no ecrã as sensações que me assaltam sempre que aqui venho. Reabriu o meu cantinho, voltaram a beleza e a poesia deste local único, que me é oferecido.

Passar uma hora aqui faz me bem a alma. 
Muito chorei nestas veredas e cantinhos, muito sonhei também.
 Muito voei por cima destas árvores antigas, lindas em todas as estações do ano, hoje esvoaçando com a brisa do norte que sopra forte. Estar aqui é apaixonante. 

Ando a ler a biografia de Fernando Pessoa por ele mesmo, um livro que saiu há pouco, compilado por Sónia Louro. A vida do escritor - para mim ele, além de Poeta, é um extraordinário pensador, filósofo, escritor e narrador.
O livro, a que a autora chama Romance, é arrebatador e ontem fiquei uma hora a lê-lo pelo Kindle na minha varanda às escuras.

A Lua quase cheia iluminava o céu todo. Senti-me só na minha felicidade. Queria partilhar com mais alguém aquele momento.

Cito o Poeta porque não consigo dizer isto melhor:

„O universo não é uma idéia minha. 
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha. 
A noite não anoitece pelos meus olhos, 
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos. 
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos 
A noite anoitece concretamente 
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.“ 

                                         Fonte: https://citacoes.in/autores/fernando-pessoa/





quarta-feira, 6 de maio de 2020

Liberdade



Uma das coisas que aprendi com esta quarentena que já vai para 56 dias é o conceito de liberdade.

A liberdade não é poder fazer aquilo que queremos, mas sentirmo-nos bem mesmo quando nos cortam essa possibilidade.

Nunca imaginei ficar em casa durante quase três meses, a não ser que fosse por doença. Nunca estive confinada em lado nenhum e nunca me senti coartada de decidir o que era melhor para mim ou para os meus.

Houve momentos, porém, em que tive de lutar pela minha liberdade pessoal, já que a dos outros me abafava e se sobrepunha aos meus próprios interesses e necessidades.

Voei para longe a meio da minha vida, naquele Setembro de 2002, já lá vão 18 anos. Nunca me arrependi. Nem quando o meu ex-marido à beira da morte disse à enfermeira com um sorriso: "Dobre a língua,  esta não é minha sobrinha, é a minha Mulher ". O caso é mais caricato do que isto, mas poupo-vos os detalhes.

Nesta quarentena compreendi que ninguém é uma ilha e que dependo muito mais dos meus do que julgava. Sem eles não teria aguentado estar tantos dias dentro de quatro paredes, só com uma varanda e um pátio para descontrair.  A minha filha é a jóia mais preciosa que tenho e sem ela, a vida seria pardacenta. Dou tudo para a ter aqui com o seu sorriso, os seus silêncios, a sua meditação, as suas fases de guloseimas, as suas pinturas e comentários inteligentes. Com ela aprendi o que é o respeito mútuo, a necessidade de distanciamento, o abraço em alturas mais carentes.

Tenho a felicidade de ter os outros filhos por cá também. E os netos bem perto.

Foi um confinamento relativo, mas que me trouxe muita Luz.

É bom viver. Sem medo do amanhã.
Como estas gaivotas da minha rua, felizes com uns restos de comida que alguém ali deitou. Parecem estar a festejar e a abraçar-se. Sem medo.