terça-feira, 7 de março de 2017

Love letters in the sand



Estive duas horas a fio a ver em que maldita caixa de papelão - há pelo menos 30 - estariam as minhas cartas e as do meu marido, na altura namorado e amigo - trazidas ano passado do sótão da minha sogra, onde estiveram sepultadas durante mais de 40 anos. 

Consegui finalmente desencantá-las todas no meio de muitas outras cartas que nada me dizem.
 As minhas para ele estão impecáveis ainda dentro de envelopes, quase todos azuis. Comprava sempre estes envelopes que já eram conhecidos na Casa de Coimbra onde ele vivia. São mais de 200. 

As dele estão todas alinhadas e agrafadas sem envelopes, como eu as conservava antes de vir para o Porto. Felizmente não as deitou fora num ataque de desespero...

Viajei sempre com elas no meu plériplo pela província. O meu marido guardou-as todas numa caixa de sapatos no sótão da Mãe ( que as deve ter lido com certeza, se bem a conheci) :).
Pedaços de juventude - dos 19 aos 27 anos - testemunho vivo de que NUNCA deixámos de comunicar, mesmo quando démos um tempo ( como agora se diz) ao outro. O Amor perdurou à distância...
Vou lê-las todas à lareira, hoje e amanhã e depois.

Vou chorar e vou rir e tenho a certeza de que me vou sentir grata.
Quanto mais não seja por perceber ainda a letra dos dois escrita a esferográfica :)

4 comentários:

  1. Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.

    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)

    Álvaro de Campos, in "Poemas"

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  2. Olha que não...

    Tenho aqui cartas escritas todos os dias - mesmo todos - durante três anos. Como podem ser ridículas? São genuinas, são prosaicas, são sonhadoras, são verdadeiras, sao idealista e realistas, são um testemunho sem igual do que fomos um para o outro desde o momento em que nos conhecemos até...o dia em que nos separaram. Quem? Não sei...

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  3. Também tenho a sorte de ter cartas assim.

    um beijinho, Virgínia

    Gábi

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