domingo, 28 de maio de 2017

Ersatz


                                          Em alemão quer dizer substituto, sucedâneo, substituição

O português não abarca o significado total da palavra alemã. Eu traduziria esta por compensação moral e até consolação em certos casos.

Ir à Foz e ao Botânico tornou-se para mim um hábito desde que o meu marido morreu. Ir a qualquer destes sítios traz-me paz, ainda que não supere o desgosto da sua perda.

Todos os dias tenho-lhe escrito uma carta, como o fazia quando éramos jovens. Falo-lhe do que sinto, do que faço,extravazo o meu sentir, Sei que ele já não está cá, mas não consigo aceitar que o perdi e que nunca mais vou ouvir a sua voz. Todos os dias acordo para a realidade.

Ontem encontrei numa pen que ele deixou umas quadras que ele escreveu para mim em 2007, já nos tínhamos separado há cinco anos. Fiquei surpreendida, porque estavam no meio de muitos outros poemas sarcásticos e até chocarreiros sobre a situação na Justiça e no país.

As quadras não têm nada de especial e até poderiam ter sido escritas por ele aos 20 anos quando se dizia perdidamente apaixonado e lamentava estarmos sempre longe um do outro.

Mas pelo facto de terem sido escritos em 2007, senti uma emoção indescritível.

Aqui ficam estas quadras tão singelas.

                                       

                              NA CONCHA DO TEU OUVIDO

                                    

                                     Na concha do teu ouvido

                                     hei-de deixar um recado :

                                     sinto-me mal, sózinho,

                                   por tu não estares a meu lado.

                      
                                                
                                     Na concha do teu ouvido

                                       hei-de dizer a verdade :

                                     como tu não estás comigo

                                     dou-me mal com a saudade.





                                      Na concha do teu ouvido

                                     vai ficar  esta mensagem :

                                     sem ti sou barco ancorado

                                    que nunca parte em viagem.



                                      Na concha do teu ouvido

                                     hei-de deixar um segredo :

                                    não me sinto bem sózinho :

                                     eu, sózinho, tenho medo.



                                       Na concha do teu ouvido
   
                                      hei-de beijar-te ao de leve

                                       com pena de ter-te amor

                                        e do teu amor ter sede.


                                                          28/3/2007                                                                     





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Foz



Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente 
A trágica voz rouca, enquanto o vento 
Passava como o vôo do pensamento 
Que busca e hesita, inquieto e intermitente, 

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente... 

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais? 


Mas na imensa extensão, onde se esconde
O inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...



                                                    Antero de Quental, in "Sonetos" 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Será


que no fim da linha há um reencontro?

Ou é só um buraco negro?


Pôr do sol para lá do Marão





Leio, e sou límpido nas minhas intenções; o que há de febre na simples vida abandona-me; uma calma completa me invade. Todo o repouso da natureza está comigo.

Alberto Caeiro

domingo, 14 de maio de 2017

Pobre país



Este embandeiramento em arco pelo Benfica ( se fosse outro clube a ganhar o campeonato, deixávamos de ser progressistas e realizados?) , pela vitória no Festival da Eurovisão ( por muitos considerado até aqui um fraco exemplo da Música a sério) ou pelo fenómeno de Fátima ( explorando a crendice mais baixa e a ignorância de todo um povo no tempo da outra senhora), deixa-me um travo amargo.


A Educação, a Saúde, a Ciência, a alfabetização ainda não chegaram a todos...para não falar do emprego, da realização pessoal e solidariedade social. Acho que um país que embandeira em arco com o futebol e um festival da Canção não é senão uma triste imagem de subdesenvolvimento. 


Já a vinda do Papa tem outros contornos e muita sombra nos bastidores, que não ouso mencionar. E não me importo de ser considerada reaccionária ou pessimista ou lá o que seja, pois sempre lutei e trabalhei por um país melhor e dei o corpo ao manifesto em alturas cruciais.




Felizmente há luar....ou glosando o Luis Stau Monteiro....felizmente há o mar, esse é que é o nosso verdadeiro património civilizacional.






Sem destino certo



Hoje fui à Baixa embora estivesse a ameaçar chuva. Precisava de umas linhas para continuar o meu crochet. E também de ir ao talho, pois o meu filho viria jantar.
Até pensei que seria ida pela volta, dado o mau tempo que se fazia sentir aqui no Porto.

Mas não.

Ao meter-me no metro para voltar, deu-me uma vontade incrível de partir. Nem sabia bem para onde. Passei a Casa da Música, onde deveria sair e continuei, continuei até Matosinhos Sul. Nunca tinha ido de metro até tão longe. Foi uma experiência engraçada. Sentia-me no estrangeiro quase, não foram os jovens barulhentos que entraram no metro a certa altura.

Saí, o vento era forte, mas quente, quase tropical.  O ar marítimo encheu-me os pulmões. Rejuvenesci logo com a ideia de que o mar estaria próximo.

Andei até à praia quase deserta. Espraiava-se literalmente até ao mar lá longe. Era o contrário da Foz, onde o mar quase nos lambe os pés na esplanada. Nã havia rochas,  mas a paisagem era lindíssima com as nuvens prateadas e o sol a espreitar.

Dezenas de parapentes - não sei se se chamam assim - flutuavam no céu. Parecia uma imagem doutro planeta.


Junto ao Edifício Transparente faziam os preparativos para um evento desportivo, surf, corrida, skate e não sei que mais. Estavam muito animados com altifalantes e música. Não gostei muito, de modo que saí dali e fui para a esplanada cá fora, onde bebi uma água a olhar para o mar.



Sentia-me tão bem , depois de andar quase 4kms!! Há quem diga que as caminhadas fazem bem à alma, hoje senti-o muito bem.

O efeito do mar e da praia em mim  é algo quase místico. Nas minhas cartas já nos anos 60, eu falava ao meu namorado da magia que encontrava na água. Ele não percebia, achava um exagero e tinha receio do futuro a dois. Dava-se mal com o ar do mar e preferia passar férias nas termas, embora se queixasse depois que só havia velhos e que não se divertia nada por lá.



Nunca nos entendemos depois de casados, ele ia para a praia da Luz contrariado e só por causa dos filhos;  depois deixou mesmo de ir quando os miúdos cresceram. Não percebia a minha paixão por aquela praia, aborrecia-se com tudo, achava-se a mais porque não gostava do mar e passava os dias a ler. Queria comer a horas certas e refeições decentes, o que não dava muito jeito nas férias.

Para mim as férias passaram a ser um drama. A partir de certa altura, o meu marido optou por não ir. Ficava com a Mãe ou iam para as termas. Ia eu sozinha com os filhos, de comboio, de camioneta ( 14 horas), de taxi e comboio, enfim, ainda não havia a Ryanair. Mas tínhamos de aproveitar aquela benesse.

Passámos muitas férias separados pois os meus filhos adoravam a casa dos Avós, que agora era nossa durante 15 dias sem termos de pagar nada. Eu sentia a falta do meu marido, escrevia-lhe cartas bonitas que só agora recuperei e me fizeram saudades.

Às vezes pensamos que ter gostos diversos aproxima as pessoas. No meu caso, afastou-nos. Mesmo quando nos namorávamos, já sentíamos que eram vidas diferentes, meios diferentes, cidades diferentes. Sempre pensei poder superar tudo isso com Amor. Mas não chegou.








sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Boa Nova


Há dias fomos almoçar a um restaurante regional que eu não conhecia - penso que se chama Bar Azul - que fica junto à Casa de Chá da Boa Nova construída pelo Arq. Siza Vieira e galardoada com vários prémios. Jantei lá umas vezes com amigos estrangeiros, que apreciaram a refeição e sobretudo, o local.


Restaurada recentemente,  é agora restaurante de luxo com estrela Michelin e portanto proibitiva para os comuns dos mortais.


O restaurante onde fomos fica num local privilegiado em Leça da Palmeira, junto ao mar.


                                                           
Era o Dia da Mãe.

O dia estava magnífico, os meus netos foram logo para as rochas fazer alpinismo junto à Capela dos Pescadores, donde se disfruta uma vista magnífica da costa toda. Nos meus belos tempos, também subia lá cima com os meus filhos, desejosos de sairem do carro, enquanto a minha sogra ficava com o meu marido a conversar lá dentro. Era sempre eu que os levava ao topo das arribas, pois, como eles queria ver a vista de lá de cima.

O local era um pouco ventoso e agreste, mas muito belo, como se pode ver nas fotos.







                                                                                                                                                                Hoje , por coincidência, reli umas quatro cartas do meu marido, escritas aos 20 anos.

Numa delas falava na Boa Nova e explicava-me o que aqueles  passeios representavam para ele enquanto criança. Eu, lisboeta, não fazia a mínima ideia do local que ele descrevia, nem imaginava vir aqui algum dia.

Passados 60 anos, fico surpreendida ao verificar as vivências do Avô e dos netos são quase iguais. O gosto pelo Belo e pela Aventura, o poder da imaginação e a poesia passam de geração em geração, quase espontaneamente.

É o destino, dizem alguns. Eu diria que é a Vida.



Nas rochas, eis a lápide com a primeira estrofe dum poema de António Nobre:




Na Praia lá da Boa Nova, um dia,

Edifiquei ( foi esse o grande mal)

Alto Castelo, o que é a fantasia,

Todo de lápis lazuli e de coral.


António No




terça-feira, 9 de maio de 2017

Alentejo

ALENTEJO - acrílico s/ tela



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, 
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII" 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sentimentos




Muitas vezes o meu marido me censurou por ter um feitio contemplativo. Dizia ele que, em momentos cruciais, me ficava a olhar sem agir. O que não era verdade. 

Lutei contra essa ideia durante mais de 40 anos. Trabalhei no duro, enfrentei situações do "arco da velha", dei voltas e voltas por cima, nadei num mar revolto e cheio de redemoinhos, consegui sempre chegar a terra firme. Sozinha.



Nunca me evadi pelo prazer de o fazer. 
Se o fiz, foi para sobreviver psicologicamente à depressão ou ao drama que se desenrolava à minha volta. E em desespero de causa.

Agora, sem marido, sem trabalho, sem amarras,  volto aos meus 20 anos. 
Foram anos de evasão ao quotidiano, de amores ardentes, de sonhos, de anseios, de fé na vida. 
Os melhores anos, apesar dos condicionalismos do nosso amor.

Releio as nossas cartas todos os dias - é quase vício -  e deparo com frases lindas, algumas escritas já 30 anos depois do nosso primeiro encontro. Pelo facto de serem românticas, não são menos sentidas ou verdadeiras. 

A vida encarregou-se de destruir muitos dos nossos anseios - os meus, sobretudo - e de me revelar com crueza a futilidade dos meus sonhos. 

Reagi mal. Evadi-me. Como hoje e agora.  


Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 


Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 



Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar. 

Fernando Pessoa - Cancioneiro


terça-feira, 2 de maio de 2017

As praias de Gaia


















Ontem o meu filho convidou-me para ir com eles até Gaia. Eles iriam correr ou caminhar e eu ficaria por ali a passear ou sentada numa esplanada.





Quando chegámos pelas 6 à Madalena, as ondas estavam enormes e o sol esplendoroso.

Sentia-se o cheiro a maresia, mesmo inebriante. Corria uma aragem amena e a temperatura era excelente.


Eles afastaram-se e eu pude gozar da vista à minha vontade. Desci pelas paliçadas até à areia e sentei-me nas escadinhas de acesso. A luz era lindíssima, suave, quase irreal.
As praias do norte são lindas, cada vez mais aprecio este tipo de costa, menos burilada mas tão selvagem e sadia.


Há momentos na vida que são compensadores de tantos outros tristes ou mesmo dramáticos. Peço a Deus que me conserve jovem e independente, capaz de estar só com prazer ou acompanhada sem ser um estorvo.



Jantámos num restaurante da Praia do Canidelo - uma carne de porco à alentejana que estava divinal e um creme de marisco também muito bom.

Foi uma das tardes mais perfeitas que tenho tido nos últimos tempos. Deus é grande.








domingo, 30 de abril de 2017

I have a love



Só hoje terminei a leitura de todas as nossas "cartas de Amor" que são muitas, desde 1965, ano em que nos encontrámos pela primeira vez, até 1971, ano em que deixámos de nos escrever. Reencontrámo-nos em 1973 e casámos, mas, nesse ano, poucas cartas escrevemos, pois estávamos finalmente na mesma cidade - Lisboa. Foi um encontro casual.

Fiz desta tarefa - a leitura das cartas por datas -  uma autêntica missão. Queria descobrir-me e ao meu marido, saber ao certo como foi todo o percurso que tivémos de fazer.  Relembrei centenas de momentos, de frases, de palavras, de gestos, de sentimentos, dramas, etc. Também estão nelas registados os episódios mais importantes da vida das nossas famílias nesses anos todos. Vale a pena ler como memórias. 


Termos casado foi quase um milagre e aconteceu quando menos se esperava. Já há um ano e meio que não nos contactávamos. Eu escrevia a minha tese de licenciatura, estava concentrada em a defender e em fazer o meu estágio pedagógico, que iniciei em Outubro de 1971. O meu marido tinha seguido a Magistratura e aguardava que o chamassem para a tropa quando resolveu terminar a relação totalmente. Já o tentara em 1968, mas nunca chegámos a cortar completamente.

A incerteza pairava no ar e ele não queria, ou já não sentia como meta, casar-se comigo. Receava o futuro, sentia-se impotente contra uma série de contratempos que sempre pesaram na sua vida desde a morte do Pai em 1964. Sentia-se responsável pela Mãe, Avó e até pela Irmã, pessoas da família que nunca facilitaram e que até nos impediram de viver o nosso namoro em serenidade. Receava, sobretudo,  que eu não me adaptasse aos condicionalismos da vida que me poderia oferecer. Repetiu-o até à exaustão quer em cartas, quer de viva voz. Mas eu persistia...

A distância tornava-se quase insuportável nas épocas de exames. Estávamos meses sem nos vermos, escrevíamo-nos cartas a encorajar-nos um ao outro, mas também sabíamos que os resultados dos exames seriam vitais para um futuro a dois. O meu marido terminou com média de 16 o curso de Direito em 1968, eu Germânicas com 15 em 1971. Tínhamos atingido as nossas metas, mas a vida ou o cansaço dum namoro tão prolongado acabou por trazer um resultado diferente do que eu esperava.

Em 1973, eu já tinha desistido de esperar, segui com a minha vida. Fiquei professora em Lisboa, tinha muitas colegas interessantes e uma vida extremamente ocupada.

Nunca consegui esquecê-lo, porém. Nem procurei outros rapazes com quem porventura pudesse sentir o mesmo tipo de paixão. Julgo que não conseguiria casar com outro, por melhor que ele fosse.O meu marido era único, nas qualidades e nos defeitos. Só depois da sua Morte, compreendi que tinha carisma, como disse o meu neto ao olhar para a sua fotografia.

Quando hoje acabei de ler as cartas e as arrumei numas caixas lindas que comprei especialmente para as guardar, senti uma nostalgia dolorosa.







Olho para o nosso retrato a sorrir e vem-me à cabeça um poema que ele me ofereceu uns dias depois de nos encontrar-nos, em Hamburgo.

When she comes

I have a love
Which I have not given
But want to give
And when she comes
I will be hers
And she mine.
And the hard day
And the soft day
Shall be ours
Together.
And I will give
And she will give
Forever.

Kieran Kilroy

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A espuma dos dias



Tenho passado parte dos meus dias, desde que vim de Leeds a arrumar as cartas que encontrei na antiga casa da minha sogra, primeiro numa caixa de papelão, depois numa gaveta, cheias de pó, mas intactas, tal qual as enviei.

É comovente reler o meu "diário" de há 50 anos. É mesmo um diário, pois eu escrevia todos os dias ao meu "namorado", a quem amava profundamente e a quem dediquei todos os meus anos de juventude com um a fé, uma esperança e coragem que me admiram hoje.





As nossas cartas, poéticas algumas, apaixonadas outras, algumas mais duras ou mesmo críticas, eram uma alegria. O carteiro já nos conhecia- a ele em Coimbra, a mim em Lisboa...

Nem sempre tínhamos dinheiro para selos, mas lá desencantávamos, quem no-los emprestasse. Outras vezes esquecíamos-nos de as deitar no marco e era uma tragédia. Todos os membros da minha família deitavam cartas no correio por mim. E apoiavam as nossas epístolas... :)

Em muitas cartas o Manel enviava-me poemas. Conhecia tantos!
Eis aqui um dos que me mandou do Paul Éluard:

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

As nossas visitas um ao outro eram esparsas. Não tínhamos transporte na maioria das vezes ou não havia dinheiro. O Manel estudava com uma bolsa , que mal lhe chegava para comprar tudo o que necessitava e não queria pedir ajuda à Mãe porque era muito orgulhoso. Preferia passar sem supérfluos, excepto os cigarros e o cinema, que lhe eram indispensáveis.  Eu vivia da mesada que o meu Pai me dava - 600.00 para comida, transportes, livros, cinemas, viagens, etc -, mas só em transportes gastava 8.00 a atravessar Lisboa todos os dias. Não havia passes de estudantes e nós morávamos a 15km da Universidade. Os livros eram todos estrangeiros e caríssimos. Não havia sebentas na FLUL.

Quando vejo os jovens hoje em dia a gastar em tudo quanto há, fico surpresa como é que sobrevivíamos, estudávamos quase sem livros nossos. Tirámos cursos com boas notas e sempre fomos tão responsáveis. Não estou aqui a gabar-me, mas a constatar os factos.

Sempre dei aos meus filhos quase tudo que eles ambicionavam, desde que fosse algo útil, mas muito mais do que alguma vez tive ou o meu marido tivera com a sua idade. Ele censurava-me duramente por lhes satisfazer muitos dos sonhos. Foi assim que ofereci ao meu filho o seu primeiro computador, o Spectrum XP, que ele adorou. Hoje é engenheiro de telecomunicações. Ao meu filho mais novo, dei colecções inteiras de livros policiais e de História, a sua paixão. Hoje é Juiz. A minha filha já tinha muitos livros em nossa casa, mas ainda comprava mais, foi sempre uma bookworm como o Pai. Tirou LLModernas e depois fez MA em tradução.

Enquanto jovens, tínhamos muitas dúvidas quanto ao futuro, várias vezes o nosso namoro foi-se abaixo com angústia e receio de que não aguentássemos tantos anos naquela espera dolorosa. O medo do futuro abalava a nossa relação, para mais com a tropa obrigatória nos anos 70. Tínhamos altos e baixos, que nos deixavam desiludidos de alguma vez conseguirmos chegar à meta.

Hoje, ao reler estas cartas,  tenho a certeza de que o nosso Amor foi algo especial, algo de Belo, algo de mágico. Procurámos a Felicidade a dois a pulso.

Infelizmente, não conseguimos realizar o sonho de vivermos juntos para sempre.

Agora, porém,  ninguém nos pode separar mais.

E como canta Joe Dassin: Et si tu n'existais pas, dis-moi comment j'existerai.





quinta-feira, 13 de abril de 2017



         PÁSCOA FELIZ PARA TODOS OS                         LEITORES DESTE BLOGUE

domingo, 9 de abril de 2017

Requiem


Oiço-o no Mezzo HD.
A morte tem-me assombrado estes últimos meses e nem a viagem a Leeds me trouxe a paz que tanto precisava. Sonho demais e acordo sempre lavada em lágrimas ou inquieta por ter de retomar a vida sem o meu Amigo, o meu companheiro de 50 anos, o meu conselheiro nas horas mais difíceis, o grande Amor da minha vida.





Fantástica criação de Mozart, que, reza a lenda, não o acabou. A morte levou-o prematuramente.
No filme Amadeus,  esta composição é o centro focal da morte do grande compositor e arrepiante.Nunca me esqueço do que senti ao vê-lo com o meu marido no cinema Trindade, que já morreu também.


Extracto da Wikipedia que é curioso:




Em Março de 1791Mozart rege em Viena um de seus últimos concertos públicos; tocando o Concerto para piano n.º 27 (KV 595). Seu último filho, nasceu em 26 de Julho.
Poucos dias antes, bateu à sua porta um desconhecido, que se recusou a identificar-se e deixou Mozart encarregado da composição de um Réquiem em Ré menor. Deu-lhe um adiantamento e avisou que retornaria em um mês. Mas pouco tempo depois, o compositor é chamado de Praga para escrever a ópera A clemência de Tito, para festejar a coroação de Leopoldo II.
Quando subia com sua esposa Constanze na carruagem que os levaria a esta cidade, o desconhecido ter-se-ia apresentado outra vez, perguntado por sua encomenda.
Posteriormente supôs-se que aquele sombrio personagem era um enviado do conde Walsegg-Stuppach, cuja esposa havia falecido. O viúvo desejava que Mozart compusesse a missa de requiem para os ritos fúnebres no enterro de sua esposa, mas faria crer - como diz-se que já fizera antes - aos presentes que fora ele quem compôs a obra (por isso o anonimato).
Diz-se que Mozart, obsessivo com ideias de morte desde o falecimento de seu pai, Leopold, debilitado pela fadiga e pela doença que lhe atingia, muito sensível ao sobrenatural devido às suas vinculações com a franco-maçonaria e impressionado pelo aspecto misterioso do homem que encomendou a missa, terminou por acreditar que este era um mensageiro do Destino e que o requiem que iria compor seria para seu próprio funeral.
Antes de sua morte, Mozart, conseguiu terminar apenas três secções com o coro e composição completa: IntroitoKyrie e Dies Irae. Do resto da sequência deixou os trechos instrumentais, o coro, vozes solistas e o cifrado do contrabaixo e órgão incompletos, deixando anotações para seu discípulo Franz Xaver Süssmayer. Também havia indicações para o Domine Jesu e Agnus Dei. Não havia deixado nada escrito para o Sanctus nem para o Communio. Seu discípulo Süssmayer completou as partes em falta da composição, agregou música onde faltava e compôs completamente o Sanctus. Para o Communio, simplesmente utilizou dos temas do Introito e do Kyrie, à maneira de uma reexposição, para dar sentido integral à obra.




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Em paz



Raras vezes tenho vindo a Leeds tão necessitada de paz, de consolo e de distracção, aquela que liberta o espírito, não a que excita ou nos pôe nos pincaros para nos deixar cair logo de seguida..
Só cheguei há dois dias e já sinto os efeitos da evasão acumulada com a presença sempre serena da minha filha. Nela nunca há ansiedades, nem tristezas, consegue um equilíbrio excelente . É uma entusiasta da Natureza como eu, da Música e das coisas bonitas. Daí ser a companheira ideal de viagens. Ela e eu complementamo-nos e agora vejo nela traços do Pai, que não existem nos irmãos tão evidentes.

Ontem fomos ao Roundhay Park, do qual já falei longamente.Estava um dia tipicamente inglês a ameaçar chuva, mas sem nunca chover, os céus escuros com nuances fantásticas de cinzento e azulado.


Era domingo de modo que havia famílias e famílias a passear, carrinhos de bébé, cães muito bem educados, senhoras velhinhas acompanhadas por filhos jovens, casais enamorados, tudo sem barulho, com muita calma, risos, simpatia e sobretudo, respeito pelas pessoas e pelo local.

O lago estava espelhado pois não havia pinga de vento...As árvores negras reflectiam-se na água, esguias e belas. Tudo tão belo que andámos uns 4 kms quase sem cansaço. Não se ouvia um carro, uma máquina, apenas risos, latidos e os pássaros, centenas deles...







À noite fomos ver um espectáculo fantástico, a nova produção do Lord of the Dance, grupo célebre em todo o mundo e que divulga tudo o que de melhor se faz nos países onde há raízes celtas. O espectáculo que é acompanhado de cenários deslumbrantes e efeitos especiais estonteantes oferece todo o tipo de dança , ballet, marchas, canções melancólicas, lutas, morte e vida. Deslumbrante, a audiência aplaudiu de pé, entusiasmada.

Saímos felizes e ainda fomos a um take away comprar uns mantimentos para comer à ceia no quarto. 
Foi um dia em beleza.

Deixo-vos um vídeo deste espectáculo.


terça-feira, 28 de março de 2017

Um dia de sol



É um bálsamo para o espírito, sobretudo quando sentimos que a Vida não tem sentido.

Continuo a vivê-la e a cuidar dos meus, mas não consigo esquecer tudo o que se passou.

É uma saudade quase insuportável, que não sentia quando o meu marido estava vivo. É semelhante à que senti ano após ano quando nos namorávamos à distância. As cartas estão aí a expressar toda a coragem, ânimo e superação das dificuldades assim como as saudades que, às vezes, quase nos impediam de estudar e de aceitar a Vida como ela era.


Agora nem sequer consigo ver o futuro.

Diz-se que as pessoas ficam cá dentro de nós, que as memórias são boas  e que é preciso olhar para o futuro e agradecer estarmos vivos... uma balela.

A nossa vida só tem sentido quando os que amamos estão presentes. E perder um que seja é muito difícil.

Tenho a certeza de que já vivi muito. Tanto!

Vivi bem e vivi mal e vivi o que podia.

Há dias, porém, em que sinto que já vivi TUDO.

Hoje fui ver a Primavera com sol.

Tem estado mau tempo e frio. Mas hoje estava lindo e no Botânico não se sente frio nenhum, o vento só sopra ao de leve e faz estremecer a água dos lagos.



O sol é forte, sobretudo ao pé dos cactos , que parece irradiarem luz. Andei 1,5 km dentro do jardim, sentei-me numa pedra a contemplar e a respirar o ar puro e a cheirar o eucalipto.

Apetecia-me morrer assim...em plenitude. Não sofrer. Não fazer os outros sofrer com o meu envelhecimento.

Fechar os olhos e deixar-me ir para o espaço cósmico...ser mais uma estrela no Universo.