quarta-feira, 6 de maio de 2020

Liberdade



Uma das coisas que aprendi com esta quarentena que já vai para 56 dias é o conceito de liberdade.

A liberdade não é poder fazer aquilo que queremos, mas sentirmo-nos bem mesmo quando nos cortam essa possibilidade.

Nunca imaginei ficar em casa durante quase três meses, a não ser que fosse por doença. Nunca estive confinada em lado nenhum e nunca me senti coartada de decidir o que era melhor para mim ou para os meus.

Houve momentos, porém, em que tive de lutar pela minha liberdade pessoal, já que a dos outros me abafava e se sobrepunha aos meus próprios interesses e necessidades.

Voei para longe a meio da minha vida, naquele Setembro de 2002, já lá vão 18 anos. Nunca me arrependi. Nem quando o meu ex-marido à beira da morte disse à enfermeira com um sorriso: "Dobre a língua,  esta não é minha sobrinha, é a minha Mulher ". O caso é mais caricato do que isto, mas poupo-vos os detalhes.

Nesta quarentena compreendi que ninguém é uma ilha e que dependo muito mais dos meus do que julgava. Sem eles não teria aguentado estar tantos dias dentro de quatro paredes, só com uma varanda e um pátio para descontrair.  A minha filha é a jóia mais preciosa que tenho e sem ela, a vida seria pardacenta. Dou tudo para a ter aqui com o seu sorriso, os seus silêncios, a sua meditação, as suas fases de guloseimas, as suas pinturas e comentários inteligentes. Com ela aprendi o que é o respeito mútuo, a necessidade de distanciamento, o abraço em alturas mais carentes.

Tenho a felicidade de ter os outros filhos por cá também. E os netos bem perto.

Foi um confinamento relativo, mas que me trouxe muita Luz.

É bom viver. Sem medo do amanhã.
Como estas gaivotas da minha rua, felizes com uns restos de comida que alguém ali deitou. Parecem estar a festejar e a abraçar-se. Sem medo.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Way to Blue



Don't you have a word to show what may be done?
Have you never heard a way to find the sun?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say if you know the way to blue?

Have you seen the land living by the breeze?
Can you understand a light among the trees?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Tell us all today if you know the way to blue?

Look through time and find your rhyme
Tell us what you find
We will wait at your gate
Hoping like the blind

Can you now recall all that you have known?
Will you never fall when the light has flown?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say if you know the way to blue?

Nick Drake


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Primavera surreal




É um dos quadros que mais gosto mas não se adequa bem à primavera deste ano.

Esta é dum outro mundo, o ficcionado, aquele que nós adoramos e receamos simultaneamente.


A nossa condição de presos nas próprias casas não rima com a pujança de verdes lá fora, a pressa das folhas em desabrocharem e cobrirem os ramos esquálidos do inverno.  É um grito da Natureza que nos fere os ouvidos, que nos dói e ao mesmo tempo extasia.

Como é que, estando o Homem confinado, preso e retido em casa, tudo lá fora continua a progredir naturalmente, com a mesma cadência e até com mais beleza?

Não é justo, pensamos nós, que as gaivotas e pássaros continuem à solta, pousando nos candeeiros em frente de casa e lançando-se em voos rasos diante dos nossos olhos.
Não é racional que nós não possamos ir lá fora à rua, à praia, aos campos, ao mar...pois se tudo era nosso até há dois dias...

Alberto Caeiro aceitava toda essa condição. Tinha uma humildade que eu não sinto. Este quadro pintado há oito anos exaltava a primavera. Hoje seria bem diferente.


Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Recitado por Pedro Lamares

sábado, 11 de abril de 2020

Jesus Christ Superstar




Em tempo de pandemia, a Broadway abriu as portas ao mundo todo.

Todas as 6ªs feiras transmitem um show exactamente como foi actuado ao vivo.

Hoje foi Jesus Christ Superstar de Andrew Lloyd Webber, que vi em Londres precisamente há 50 anos, em 1970.

É um musical avassalador, que conjuga o drama da Paixão com a mentalidade hippie da época.
Esta versão é moderna e insinuante, assim como comovente e mesmo trágica.

Vejam, é uma boa experiência pascal.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

A liberdade




Só sabemos o que ela vale quando no-la tiram.

Sejam os pais, sejam os cônjuges, sejam os filhos, seja a polícia, seja a guerra, o fanatismo...ou uma epidemia letal.

Não vou em rezas, nem em pragas, nem acredito em castigos de Deus.

Limito-me a esperar com medo.
Nunca me senti tão desprovida de liberdade.
Mas também nunca me senti tão privilegiada na minha prisão dourada.

Tenho tudo o que preciso e até a família por perto.

Da minha varanda vejo o mar ao longe. E vejo a primavera a renascer, linda, verde, cheia de viço e alheia aos dramas humanos.

Hoje tirei esta foto que me pareceu quase metafórica.

A liberdade é o bem mais precioso que temos. Sejamos merecedores dela.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O inverno











Foi nessa idade que a poesia me veio buscar

Não sei de onde veio
Do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
Não eram palavras
Nem silêncio
Mas da rua fui convocado
Dos galhos da noite
Abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
Voltando sozinho
Lá estava eu sem rosto
E fui tocado.


Pablo Neruda

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

SOPHIA MELLO BREYNER - 100 ANOS







Porque 


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


                                                        Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A morte é uma terra estranha



Não é possível explicar dum modo claro como é que Deus permite que uma criança de dezoito meses morra em vinte dias num hospital, detectada a doença - leucemia - e tendo sido garantido aos pais que o caso tem cura.
Essa criança era o meu sobrinho bisneto, o mais novo. O Pedro. Ou Pêpas, como lhe chamava a Avó com ternura infinita.
Há quatro dias ainda ele estava vivo no hospital e toda a família ia seguindo pelo whatsupp os progressos do pequenino. Sempre à espera de boas notícias. Nunca se espera o pior.

De repente, a realidade veio ao de cima. 
Tudo mudou.
O Pedro apagou-se. Aquele sorriso lindo desapareceu, as mãozinhas aveludadas deixaram de se mover, os olhos escuros e vivos fecharam-se para sempre. Como a chama duma vela ténue. Sem  ruído, sem dor.



Quando a minha sobrinha ficou grávida, há dois anos, resolvi fazer uns casaquinhos à moda antiga em tricot e tive um gosto enorme em verificar que ainda conseguia fazer algo de jeito. Mandei-lhos para Lisboa e vi o Pedrinho em fotografia. Fui sempre seguindo o crescimento do meu sobrinho pelo FB, pois a mãe do menino é fotógrafa e punha fotos lindas dos filhos no mural dela para nós apreciarmos. Estou longe de Lisboa, é raro ir lá, mas sabia bem quem era aquele pequenino.

Nestes dois dias só me vinha à cabeça a frase de Augusto Gil que todos sabemos de cor: E as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?
Mas não acredito que haja um Senhor, nem que a vida tenha qualquer sentido.
Só sinto revolta e raiva. É injusto perder um filho quando 90% das leucemias na infância têm cura. É aviltante. A morte devia ser para os velhos, os que já viveram tudo.

Ontem fui para o Botânico.
Chovia a cântaros, mas eu queria que chovesse lá fora como chovia dentro de mim. Estive minutos  sentada a ver a chuva a cair.

Tudo chorava. Os plátanos, as tílias, os áceres, os buxos, as camélias desfolhadas, a glicínea, a vinha virgem. As lajes estavam brilhantes e polidas como nunca. As folhas no chão cheias de gotículas de água que aumentavam as nervuras e as manchas arruivadas. O céu parecia de chumbo, sem sombra de azul. Toda a natureza era um espelho do que me ia na alma.





Não consigo deixar de pensar na injustiça que é a Vida.

Fica aqui o meu tributo ao Pedrinho que eu amava,  mal conhecia e nunca virei a conhecer melhor.



Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô