sábado, 21 de janeiro de 2017

Aguarela


Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
E se a gente quiser ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
Depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

VINICIUS DE MORAIS

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Way to Blue





Quadro pintado em 2012 - Underworld



Don't you have a word to show what may be done
Have you never heard a way to find the sun
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say
If you know the way to blue
Have you seen the land living by the breeze
Can you understand a light among the trees
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Tell us all today
If you know the way to blue
Look through time and find your rhyme
Tell us what you find
We will wait at your gate
Hoping like the blind
Can you now recall all that you have known
Will you never fall when the light has flown
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won't you come and say
If you know the way to blu
e



Read more: Nick Drake - Way To Blue Lyrics | MetroLyrics 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Cascatas






Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem por que ama, nem o que é amar...
Alberto Caeiro










quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Família ???


Há alturas em que o facto de pertencer a uma família enorme me enche o saco.







Devia ignorar a opinião de irmãos e sobrinhos quando me aborrecem e são muito discordantes da minha, mas o FB não me deixa. Já fechei a conta de vários membros da família, que pura e simplesmente ignoram a minha vida, não apreciam o que eu faço, desprezam as minhas opiniões e acham que pelo facto de discordar, já estou chéché ou sou do contra.

Nunca gostei de unanimidade. Assumo que tomo posições que não são politicamente correctas e que me insurjo contra a hipocrisia no FB. É preferível não conhecer bem as pessoas com quem travamos diálogo, pois muito do que se posta é falso ou mero blablabla. E as pessoas só querem elogios, aplausos, likes, yess e adulação.


Se estou ainda nas redes sociais é por causa de primos afastados, amigos estrangeiros que conheço bem, grupos vários de fotografia que me apaixonam e notícias que vou lendo e me pôem a par do que se passa. A família nunca me faria inscrever-me numa rede social, conheço-os bem demais e sei que se regem todos pela mesma bitola, pondo likes nas personas gratas e ignorando as outras.

Já me aconteceu mais duma vez e ainda me choca.





Hoje meditei nisto tudo enquanto passeava no meu quarteirão tão belo.

 O inverno chegou, mas os dias têm estado tão bons que até as flores já começam a brotar nos rododendros, as camélias já estão todas floridas, há trevos todos amarelos e o outono ainda nem sequer desapareceu, como constatei nos áceres da Rua Ruben A.


Na Casa Allen, as árvores que há meses me fizeram sonhar estão agora completamente despidas, mas deixam entrever a sua profunda cumplicidade. Os ramos estão entrelaçados e destacam-se no azul do céu.

Era tão bom que as pessoas fossem como as plantas. Caladas, honestas e vigorosas. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Adeus , Mário Soares





Não conseguindo escrever um post tão certeiro e tão equilibrado como este que vos sugiro ler, remeto-vos para o blogue O Livro na Areia.

https://olivrodaareia.blogspot.pt/2017/01/a-mario-soares-sem-muito-rancor-nem.html




sábado, 7 de janeiro de 2017

A sorte que temos

Hoje acordei com optimismo.

Sentia-me bem, apetecia-me ver o mar, ir à Foz, andar, ver pessoas...




Foi o que fiz. Meti-me no autocarro pelas 12.30 e cheguei à Foz 15m depois.

O sol iluminava o casario da Rua de Diu e ao fundo, lá estava aquela mancha azul, que me atrai desde sempre.




Havia um calor de primavera, o sol era quentíssimo e a esplanada estava cheia, mas arranjei uma daquelas cadeiras super confortáveis e ali estive a almoçar um bife à inglesa e a olhar para os barcos à vela - dezenas que vogavam no horizonte.



Era uma tamanha paz e um ambiente tão agradável - um bar que não tem música em altos berros é um oásis - que poderia ali estar durante horas.


Ouvi música clássica, tirei fotos, li. Para mim, uma tarde na Foz é um dia ganho.

A Tavi abriu uma nova secção que vende pão e tem mesas, muito gira e bem cheirosa. Gostei.

Vim de autocarro, como sempre. Sentia-me leve e feliz.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Nostalgia

Há dias em que me levanto com dificuldade.

Não me apetece acordar....nem sair da cama....nem enfrentar o vazio....nem viver mais do que o necessário e o necessário é demais....

Não é depressão, é cansaço da rotina, um ansiar por outra coisa, uma nostalgia de momentos vividos noutros lugares.

Evadir-me é a palavra de ordem. Seja passeio, seja mar, seja cinema. Hoje será pintura. E cinema.

Só posso evadir-me levantando-me, de modo que lá me ergo e ponho decente. Bebo um descafeinado e como dois pãezinhos com manteiga. Já estou mais humana.

Vou ao quarto da minha filha, olho para tudo à volta e fico feliz por ainda ter aquele espaço para estar com ela virtualmente. O Buda olha para mim com ar bondoso. O cartaz do Hobbit leva-me para um mundo ao qual não pertenço. Os sonhos da minha filha estão ali todos...mas não são exactamente os meus.

Passo ao atelier e aí já entro no meu mundo.
Quadros de todos os géneros, com ou sem moldura, aguardam um destino...não sei qual é, nunca pintei para vender...prefiro oferecer...mas só a quem aprecie.

Pego no papel de aguarela canson. Encho-o de água meio suja do copo onde estão alguns pincéis. Deito pequenas porções de tinta acrílica sobre o papel molhado.  Verde clarinho, azul prússia, amarelo, laranja, roxo, e branco muito branco. Passo os dedos por cima da tinta, é suave, sedosa, agradável ao tacto. Espalho as cores muito pálidas por zonas específicas do papel e imagino os campos, os vales, os céus, os sonhos...tudo meio nublado e onírico...

Deixo secar.

Ficou assim...


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Los Arboles de la Vida




O meu Irmão Mário Cordeiro publicou recentemente um livro de poemas em Espanha e na América do Sul intitulado Los Arboles de la Vida.

Coloco aqui um dos poemas de que mais gosto : Pedido






Entretanto produzi mais três quadrinhos bucólicos, tipo aguarela. São os primeiros de 2017.









sábado, 31 de dezembro de 2016

Farewell 2016



Os portões estavam fechados. Não percebi porquê. Que eu saiba hoje não é feriado.

Felizmente o portão dos estudantes, lateral e mais estreito, estava aberto e por aí entrei.

O jardim no inverno está inundado de sol e até queima...

As árvores estão sem folhas, esguias, erguendo-se para o céu dum azul límpido como se não vê no verão. Tudo deixa entrever a fase de pousio, de descanso, de retiro.

Não há nenúfares, só papiros. Não há flores, mas as camélias continuam a forescer e centenas de botões preparam a chegada da primavera.

Por entre os troncos que assumem formas estranhas mas interessantes, passam os raios de sol muito ténues. a luz é linda como se estivéssemos numa catedral.

Ouvem-se os passarinhos, poucos e esparsos. Com este sol devem sentir-se bem como eu.

Último dia do ano, que muitos dizem foi mau.






Comparando uma foto do Natal do ano passado e deste ano noto uma grande diferença. O meu ex-marido não está. Na foto do ano passado via-o a sorrir para os netos a fazerem o seu show. Este ano só tiraram uma foto em casa dele e notam-se as sequelas da doença grave que não tem fim. Nada será igual no ano que vem...

Não, não espero que o a próximo ano seja muito melhor. O meu filho mais velho vai finalmente conseguir assentar mais aqui pelo  Porto e viajar menos para os EU, já que a Veniam fechou a sua base na California e abriu uma nova em NY, bem mais perto. Assim seja, para bem de nós todos que gostamos de o ter por perto.






A minha filha parte depois de amanhã para Leeds, de novo. Vai-me fazer muita falta...mesmo muita. Nestes dias habituei-me à presença serena dela, à sua companhia, a sua meiguice e sorrisos. Não fizémos tudo o que queríamos, ir ver as iluminaçõesa da Baixa e comer gambas ao alho em Matosinhos. Mas estivémos bem, aqui à lareira....

Vou-me sentir mais só. Mas inspirada e com forças para viver.


Adeus 2016.

Venha 2017.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Four seasons



Eis o produto terminado.

Gosto.





Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.



“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.