sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os jardins da minha vida

jardim dos cactos
Estive toda a tarde - ou quase - a ler sobre Sophia de Mello Breyner.
Ontem fiquei a pensar longamente sobre o que escrevi no post e senti uma necessidade enorme de ir ao reencontro da sua obra, da sua vida, das sua memórias.
Encontrei muita informação no site da PEditora, agora detentora dos direitos  de edição, que tem estado a pôr cá fora todos os seus livros, a sua obra completa. Quando lá vou, folheio-os, mas nunca comprei nenhum. Tenho alguns em casa e li muitos da biblioteca da escola. Nem tudo me encanta, mas há uma particularidade em Sophia com que me identifico sobremaneira: a sua paixão pelos jardins, mais, a sua necessidade vital de os ter por perto...

pedras com musgo
Nasci numa rua tradicional de Lisboa e já éramos seis filhos quando mudámos da Rua Rodrigo da Fonseca para o Restelo, local ermo - talvez parecido com o Campo Alegre do tempo da Sophia menina - onde abundavam as terras ainda não adquiridas, os campos de papoilas e as joaninhas, lagartixas e espiguinhas que picavam as pernas. Como ela refere, também eu andava sempre com as pernas todas cheias de arranhões e nódoas negras, pois além de usarmos vestidinhos com as pernas ao léu, éramos estabanadas até dizer basta. Adorávamos saltar o muro que separava o nosso jardim clássico com choupos, eucaliptos, mimosas, trepadeiras, pinheiros, tílias e árvores de fruto, para ir descobrir o secret garden, onde diziam existir colónias de ciganos, de quem tínhamos medo a valer.

Hoje quase sinto o cheiro daquela terra inculta e a monte e da erva molhada.....que saudades.

o velho eucalipto
Quando saímos dessa casa, em 1971, e fomos viver para um andar, pequeno em tudo, mas com uma localização privilegiada no centro de Lisboa, muita falta senti do nosso jardim imenso.
Mas tinha 25 anos , já trabalhava e o tempo para meditações não era muito. Mesmo assim, a proximidade do Jardim da Gulbenkian, onde preparei aulas e trabalho do estágio e onde ia nas horas vagas, compensava um pouco a falta do espaço a que estava habituada.

Só voltei a ter um jardim, com esse nome, aqui no Campo Alegre. Durante trinta anos não soube o que era passear por entre flores, árvores de grande porte, no outono ou no inverno. O que mais se aproximava dum jardim era a Rotunda da Boavista , onde passei horas com os meus filhos pequeninos. Sem carro tinha dificuldade em deslocar-me até muito longe e o meu ex- trabalhava que nem louco aos domingos.

Há sete anos que habito aqui nesta zona - precisamente onde Sophia nasceu ( a sua casa é agora a
A casa onde Sophia nasceu, na Rua Antonio Cardoso
Galeria Cordeiros, uma casa lindíssima que podem ver aqui), não muito longe da Casa Andresen ( da sua Avó) e da Quinta do Campo Alegre, que ela descreve nas suas memórias:

Papiros refletidos no lago dos nenúfares
http://www.portoeditora.pt/conteudos/imagens/campanhas/sophia/Ler_01122012.pdf

Ao ler estas linhas hoje, pela primeira vez, pois pertencem a escritos que não foram publicados, pareceu-me estar a ler uma página do diário que nunca escrevi mas que poderia ter escrito, descrevendo o encanto e as tropelias que os meus manos e eu fazíamos no nosso jardim do Restelo nos anos 50.

Percebi bem hoje por que gosto tanto deste local e me identifico totalmente com ele.

fonte de granito
Um dia - sonho com isso -  criarei um livro só com fotografias minhas tiradas aqui....ficará como uma memória para os meus netos  dos mais belos momentos que vivi.

2 comentários:

  1. Este post é lindo, quer nas palavras, quer nas fotografias. Faz-me recordar os tempos da minha infância e adolescência quando eu morava numa casa numa zona rural com um grande quintal, cheio de flores, e quase envolvida por campos e pinheirais. Não esqueço o regato que existia bem próximo, onde o meu pai nos levava, nas noites quentes de verão, a ver os pirilampos. Não me esqueço desse espetáculo e tenho saudades. Hoje moro na mesma zona, mas já nada disso existe. É o preço do progresso que,bem frequentemente, se esquece de respeitar a Natureza.

    Um beijo.

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  2. Penso que fomos felizardas, Graciete,por apesar de vivermos na cidade podermos usufruir de tanta coisa boa que danes existiam em locais dispersos do centro. O Restelo era um deserto, mas foi lá que vivi 20 dos mais importantes anos da minha vida, autocarro para cá, idem para lá, sempre a viajar pea cidade, muitas vezes cansada e desmotivada do curso...depois fui mesmo para o desert, a Beira Biax tinha tudo que é rural, mas o desconforto era enorme.... Chaves mais airoso, com um jardim a monte, muito mal tratado....ainda lá pantei umas coisas, mas estava grávida da Luisa e não podia fazer esforços!!

    Bom Domingo...

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