segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Os plátanos



No leque das árvores de folha caduca, os plátanos são sem dúvida das mais populares, não só pelo seu tamanho, mas também pela beleza das suas folhas recortadas, que adquirem tonalidades castanhas, douradas muito belas.

A minha Mãe conservava estas folhas debaixo dum tapete durante uns dias, deixando-as ser pisadas de modo a ficarem bem espalmadas. Usava então arames para fazer uma armação que cobria com papel crepe castanho ou verde seco. Envernizava as folhas de modo a não perderem a consistência. Estes ramos ficavam muito bonitos no meio da folhagem dourada ou seca no Natal.
Lembro-me dum presépio que montou só com folhas destas a ornamentar a cabana com as três figuras principais que eram douradas.


Adoro folhas de plátano e guardo-as duns anos para os outros, apesar de poder arranjar quantas quero no jardim botânico.

A minha amiga Regina sugeriu-me o poema de António Gedeão que transcrevi abaixo. As fotos são minhas.





As folhas dos plátanos desprendem-se e lançam-se
na aventura do espaço,
e os olhos de uma pobre criatura
comovidos as seguem.
São belas as folhas dos plátanos
quando caem, nas tardes de Novembro,
contra o fundo de um céu desgrenhado e sangrento.
Ondulam como os braços da preguiça
no indolente bocejo.
Sobem e descem, baloiçam-se e repousam,
traçam erres e esses, ciclóides e volutas,
no espaço escrevem com o pecíolo breve,
numa caligrafia requintada,
o nome que se pensa,
e seguem e regressam,
dedilhando em compassos sonolentos
a música outonal do entardecer.

São belas as folhas dos plátanos espalhadas no chão.
Eram verdes e lisas no apogeu
da sua juventude em clorofila,
mas agora, no outono de si mesmas,
o velho citoplasma, queimado e exausto pela luz do Sol,
deixou-se trespassar por afiados ácidos.
A verde clorofila, perdido o seu magnésio,
vestiu-se de burel,
de um tom que não é cor,
nem se sabe dizer que nome tenha,
a não ser o seu próprio,
folha seca de plátano.
A secura do Sol causticou-a de rugas,
um castanho mais denso acentuou-lhe os nervos,
e esta real e pobre criatura,
vendo o Sol coberto de folhas outonais
medita no malogro das coisas que a rodeiam:
dá-lhes o tom a ausência de magnésio;
os olhos, a beleza.

António GedeãoPoemas Póstumos,
Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1983

Um vídeo que me lembra os meus tempos de criança e adolescente, na voz do eterno Nat King Cole com imagens do outono nas florestas norte-americanas.


5 comentários:

  1. Virgínia, a folha que está na bandeira do Canadá é do Ácer e não de um plátano. Quando para lá fui também pensei que era, mas depois esclareci-me, pois plátanos dos nossos nunca vi nenhum!

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    1. Esta é de bradar aos céus.
      Até uma criança sabe, que a folha na bandeira do Canadá, é do ácer.

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    2. Já respondi......e vc sabe todos os simbolos da bandeira portuguesa? Por ordem alfabética? :))))

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    3. Por ordem alfabética?????
      Essa questão é hilariante!
      Saberá a menina, o significado dos mesmos?

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  2. Tem razão, Dalma, é a folha da chamada maple, árvores que tenho aqui na minha rua com folhas de cores ainda mais bonitas que as de plátano. Infelizmente são mais frágeis para guardar. Vou corrigir o erro. Obrigada!!

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